terça-feira, 3 de abril de 2018

Diante de uma pintura


Rebeldia acabada em meio ao rio



Agora que eu adormeci e meus sonhos
se tornaram o vinagre amargo das solidões
precisei implorar para ganhar algumas esmolas
mas pelo visto ninguém ouviu meus gritos. 
 Depois que o tempo se tornou um blue,
depois que eu marquei meus olhos com cosmopolitismos,
depois que os livros foram vendidos nos sábados,
sim, eu mesmo, eu, o agreste agricultor literário
vi o rio brilhando com pedras enigmáticas e mortos.

Fui lembrando desesperado da escola,
a suja e imunda escola da humanidade, onde os homens
são porcos do trabalho e o trabalho humano é uma lavagem,
porque os ricos descansam em cima dos pobres e os pobres
são meros coitados. 

Mas não ouviram porque me colocaram em cima do muro
e com o dedo em riste me chamaram de vagabundo.
Mas, vagabundo de quê? Das colheitas ou das mariposas?
Porque quando me procuraram já me acharam com os mortos.

Eu não estava na tumba.
Não, não estava, 
não estava na areia, nem no céu,
nem no fim do mundo.

Mas quando levantaram as cabeças cortadas
viram dois profetas apontando para um rio,
um silencioso rio onde a voz de Deus se debruçava.
E dois anjos apontavam para mim e com os meus olhos
os soluçantes gritos brilhavam como duas espadas alvas.

-Que fazes aí, Gabriel? Perguntaram, com as mãos molhadas.
Mas eu estava morto, não estava?
Minhas mãos inchadas de poemas agora estavam
cortadas no meio do nilo, 
meus olhos cheios de exílios vinham para alegrar
as gaivotas com mares e saudades.

Naufragado, sozinho, o rio foi se debruçando de
cima
e tornou-se uma esperança de miragens.

Então eu encontrei um só amigo,
o nublado coração inchado acelerou
e enquanto gotas de mel enchiam os olhos
febres amarelas arrastavam os pés para a meia sombra.

Onde estava? Não estava.
E pelo meio dos troncos 
pequenas cigarras cantavam
impacientes pela ressurreição dos mortos,
e a lua ia ditando aos escrivães do céu
os nomes dos sufocados pelas fumaças.

O mar delirando versos angustiava
seus mortos e o desaparecido papel
das colinas ia recitando poemas de amores.
           Enquanto o coração despertava
 o rio foi se tornando azul, porque o vermelho do sol
não aguentou tanta dor de metáforas. 
 Não nos venceram, com certeza, nunca elegeram. 

Depositaram no meio do rio a rebeldia dos meus olhos,
enquanto os querubins de natal luziam pelo céu,
estrelas caiam em cima dos coqueiros esquecidos,


e o amor transpirava, sofrendo, vivo.

Protesto ao tempo



Sofrimentos,
sim,
pobres sofrimentos,
sim,
e passa chorando o
vento,
sim,
e as luzes do campo
se apagam
em prantos,
sim.

Sofrimento,
novas
odes
velhas de
sofrimento, 
não,
pequenas casas
de serafins
e ouros,
não,
gotas de algodão
das 
montanhas
e tijolos,
não,
borboletas em
forma de fornalhas,
tristezas
em formas de
bigodes felinos,
não,
aparador de moscas,
livros esquecidos
nas estantes,
não,
bandeiras de
velhas nações
desaparecidas.

Sofrimentos,
portas de sofrimentos,
enquanto o sangue
dos hospitais,
sim,
enquanto as ondas
do mar,
não,
enquanto o outono
se finda em chuva,
não,
enquanto a míseria
do peito adormece no rio,
sim.

Folhas no coração adormecido



Temos coloridas casas,
 os arbustos ao vento 
dançam para alegrar
a tristeza de pequeninas fadas.

Dorme, coração,
sua ampla joias de emoções
estão no fundo do mar.
Borboletas são serafins,
e os reis do petróleo jogam
suas cartas para as praias.

As folhas se vão.
As folhas, as alegres folhas.
O coração está triste,
o pequeno coração,
fruto da míseria e da vida,
fruto das coisas que a pobre
cigarra não consegue compreender.
Ela, que vive para cantar,
se espanta
com a repulsa das formigas
embriagadas de comércio e sujeira.

O coração se eleva com um grito.
Do outro lado do rio a voz de Cristo
se findou da montanha como um tijolo atirado no peito asmático.
Dou-lhe uma, dou-lhe duas, e vendo todas as macieiras
para os corações desesperados.
Mas o coração está dormindo.
E as folhas, estão chorando,
enquanto os brotos dos feijões

mortos, vão surgindo...

Das guerras de Castela


...os mouros abandonavam os castelos, los judios abriam-nos as portas, os cristão derrubavam os infiéis, e Castela se tornava nuestra...
-dos arquivos da Reconquista, sem data -


  1. Muros de pedra te rodeiam
  2. com algorismos infinitos e dores,
  3. lembranças de primaveras serenas,
  4. ares mortos de velhas flores.
  5. Nome de um sepulcro, terias com
  6. cordilheiras frias e amargas e no
  7. pulso de suas mãos Castela seria
  8. conquistada dos mouros de areia e pedra.
  9. Vinhos e inquisições trarias
  10. nos ventres imensos das pedras.
  11. Com borboletas desfarias nações,
  12. pela mercê dos reis e dos aldeões.
  13. Com muita solidão gritarias
  14. enquanto as nuvens das tempestades
  15. desfariam mesquitas e outras religiões.
  16. Para isso erguestes com cuidado
  17. as chaves celestes dos dinheiros aguados.
  18. E do outro lado o mapa do oceano:
  19. avante tropa, Deus nos guia, e outros tantos.

Paisagem