domingo, 23 de julho de 2017

Canção de desespero



(marfim de prata)

A lua não apareceu
porque não tinha dinheiro no céu.

Os anjos choravam de
alegria, enquanto o mar
cantava suas cantigas de ninar.

Por que choras, pequena gaivota?
Choras de saudade do mar?

O vento que balança o barco
meu rosto insiste em cortar.

Os mercados tem ações
que insistem em se quebrar.

Meu coração murmurações
que insistem em saltar.

A gaivota de asas lentas
vive se gabando de ouro.

Meu chapéu tem um furo,
mas minha alma é cigana.

Escuro, escuro é o muro,
o céu é escuro, é azul o muro.

A lua não apareceu
porque não tinha dinheiro no céu.

Valioso



Meu coração tem marfim
e pedras preciosas pequenas.

Meu coração é sereno
como uma nuvem sem água.

Ai, amada, meu coração
é de ouro, é de prata!

Perplexidade



Não querem que eu seja feliz
não, não querem.
Mas o vento tem
plumas que me
agridem o rosto.
Não, não querem.

Em silêncio me ferem
com facas invisíveis.
Não, não querem.
Não querem que eu seja feliz.
Então a vida me fere.

A vida me fere
com gotas de morte.
Eu tenho paz, eu tenho sorte.
Não, não querem.

Enquanto caminho
para trabalhar no vento,
minhas mãos se congelam
de tédio, sem dinheiro.

Não, não querem.
No muro o meu nome
é um apito, um bule,
no mar meu espírito
naufragou de amor.

Não querem que eu seja feliz.
Não, não querem.
Por isso deixo todos perplexos,
todos desesperados,
todos amargos, porque 
as palavras são vãs,
e a vida é vã, e a morte
é vã, e as coisas vãs
são todas poéticas.

Não, não querem.
Por isso sou feliz
com a bolinha de papel,
com a caneta azulada,
com o destino das estrelas.

Sim, sim: me querem!

Canção da bichinha




Ai, a bichinha sim,
ai, a bichinha não.

Ai, a bichinha ali,
ai, a bichinha lá.

Barbas de pratas
chorando no ar.

Violinos quebrados
na maldade do mar.

Ai, a bichinha sorri
com sete laços de barretes.

Ai, a bichinha sim,
ai, a bichinha não.

Dizem que vivem em
água doce, em água morna.

Barbas de pratas
chorando no ar.

Violinos quebrados
na maldade do mar.

Escrever



Escrever é vento,
leve tormento de quem
não sabe o que descreve.
Sabedoria.

E.A.



Estou aqui.
Que horas são? São as mesmas.
Mas não quero olhar o relógio.
Estou sem inspiração,
escrevo tudo, escrevo as mesmas
coisas que escrevi ontem,
as mesmas besteiras,
as mesmas canções.
Estou aqui.
Aqui, fazendo o que?
Exatamente as horas tais
estou aqui, sem saber o que fazer.
Sou escravo de uma firma,
sou escravo de um corpo.
Por que? Porque a vida
nos quis escravos de tudo.
De tudo: escravos do amor e da morte.
Que horas são?
Que me importa saber as horas?
Não sei escrever.
Estou cansado.
Estou sem inspiração.
Estou calado.
Só não estou morto
porque ainda vejo, falo, respiro,
sinto.
Viver é sentir?
Sei lá o que é viver,
sei lá o que é sentir.
Estou aqui.
Pareço uma árvore,
mais não estou plantado.
Estou trabalhando para
receber o papel que o governo
imprime em suas máquinas de estado.
Enquanto passo fome,
passo sede, passo gritos,
e... e que importa? Tenho
que passar por isso e por tantos.
E todos me são iguais.
Todos reclamam enquanto fico
em silêncio, enquanto penso,
enquanto escrevo.
E eles se irritam porque não
trabalho.
Não, não sei porque não nasci
com alma e espírito de escravo.
Mas sou escravo.
E estou aqui.
Por que? Porque as horas
dizem que estou aqui.
E minha cabeça não
soluciona o estar ou não estar
aqui.
Aqui aonde? Aqui?
Não sei se sou isso que escreve,
se sou isso que canta.
Meu Deus, que tédio, 
que tristeza, que lugar desgraçado.
Vão para o inferno todos?
Eu irei junto? Não é melhor
me deixar em qualquer lugar
onde exista o amor, a paz,
a esperança e a felicidade?
Essas coisas que não existem.
Coisas imbecis, passatempos do ócio,
invenção das religiões, tédio das massas.
Trabalhar, trabalhar, trabalhar.
É isso a vida? Estudar, estudar, estudar.
É isso a matéria?
Que há mais para saber e não saber.
Me deixem em paz.
Quero ser sem ser.
Não falem comigo,
me deixem aqui, me perdoem,
me digam: que faço aqui?
Não faço nada porque não estou aqui.
E passarão todos. E esse é o final.
De resto a explicação ficou no verso:
Estou aqui.

Poema da morte



A morte beijou
a lua

com beijos serenos
de prata.

A vidraça quebrou-se.

A lua nua
sorriu :

prata e alva.