sexta-feira, 27 de novembro de 2015

diálogo qualquer

- Não lembro dela...
- Já esqueceu mesmo?
- Sim. Onde nos vimos pela última vez?
- Uma rua antes de chegar em sua casa...
- De cima? Ou do lado de baixo? 
- De baixo.
- De qualquer jeito eu me lembraria dela.
- Sem dúvida. Talvez você tenha bloqueado a lembrança.
- É possível...
- Sim. Você não lê os evangelhos?
- Não comece com suas citações bíblicas...
- Não se pode esquecer uma loirona de olhos verdes, meu caro.
-É possível se esquecer tudo. É possível esquecer livros, trechos, citações, lembranças diversas. E pessoas também podem se perder na lembrança.
- É a idade.
-Não me insinue que estou com apagões...
-Não insinuei nada. Pode ser que ela se lembre de você.
-Não quer conversar com ela? 
- Não. Gostaria de sair daqui.
- Acho que ela se lembra muito bem de você.
- Não lembro dela.
- Ok.
(foto: ilustrativa)

um verso de amor

Hoje é um dia que passará como todos os dias.
E no meio desse dia haverá outros dias.

E dentro desses variados dias, estará o sorriso
daquela que foi amada sem nenhum aviso.

Os dias passam, correm como  rimas
que escorrem. Mas bem acima
está as lembranças dos amores, 
que nunca foram dissabores. 

Hoje é o dia que passará e nunca chegará
                                                                                         [a findar. 
Continuará sendo o mesmo

E dentro desse mesmo dia 
haverá outros infinitos dias.
E dentro desses infinitos dias

estará o infinito cetro do amor!

suspiros poéticos

Todos os caminhos são
possíveis ao impossível.

Por isso a poesia não é
apenas um abismo,

mais um arco-íris
colorido... Nuvens,
noites, luzes, estrelas

suspiros...

tudo cabe dentro da canção.
Maior do que o mundo,

quem diria, não seria,
a minha poesia e o meu
coração.

Não entenderam a canção
nem o ritmo do poeta.

Ficou a marca de um mo-
mento que passou como
outros e outros momentos.

Quem o registrou?
Deus, a vida, o destino?!

Os olhos do poeta não passam
de olhos de menino...

Todos os caminhos são
possíveis ao impossível.

Por isso a poesia não é
apenas um abismo,

mais um arco-íris
colorido... De nuvens,
noites, luzes, estrelas, 

suspiros...

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O PRIMEIRO SALMO


*                                       
Era a primeira vez que eu notava o sorriso
dela. Nunca havia imaginado que aqueles olhos
tão escuros e belos, pudessem estar sendo dirigidos
para mim. Lá estava ela, sentada na mesa em frente.
A conversa como sempre girava em torno de coisas
triviais, como: aquele ali é um profundo vigarista; 
aquela ali me ajudou num momento de dificuldade;  tal 
e tal foi despedido; tal e tal foi contratado; estamos nessa
crise por que o nosso prefeito roubou; já sabíamos disso, é
claro;  nós somos os únicos que iriamos fazer a diferença na
política. Eu ria, embora nada disso me importava.
Eu olhava de novo para ela, que estava tão perto e tão longe
de mim. Quase um paradoxo. Ela sorria. Não desviava o olhar de mim, embora eu desviasse de vez em quando.
"Coloca outra música, xará! Essa tá batida!" ouvi no canto gritar o homem de cabelos grisalhos no canto da nossa mesa. Falava mais alto do que todos ali.
Mudou-se a música. Ela desviou o olhar, conversando com
a amiga. 
"Dá outra coca pra mim, camarada!", "porra, cê não bebe memo, em?!", "é que ele quer ser padre, não é mesmo?", "como, se ele é protestante?", "nada disso. Só tenho origem judaica-cristã. E gosto desses assuntos", "então vai virar beato mesmo". Há!há!há Sorri e ri junto das irônicas palavras, recordando os versos do Primeiro Salmo.
Ela me olhava, e eu a encarava, desejando saber o que
significava aqueles olhares. Poderia ser apenas que ela
fosse uma mulher que gostasse de sorrir, ou se estivesse
dizendo sem palavras: tome uma atitude, idiota, e venha
falar comigo.
 Assim a noite passava, em conversas, risos, e inúmeras
gracinhas. Vi, quando ela se levantou e foi com a amiga,
ainda sorrindo, e entrou num carro preto, desaparecendo
na esquina.
Eu, bocejando e com sono, entrei em meu carro,
contente por tudo ter acontecido e por nada ter acontecido.
Ia recitando para mim mesmo em voz baixa o primeiro Salmo: bem-aventurado o varão que não anda segundo o conselhos dos impios...
(foto: ilustrativa)
 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

DISTRAÇÃO


Não há verso mais vivo do que a vida
Por isso faço poesia
Não sei fazer estrelas
Quem sabe um dia eu as poderei criar
Criar, criar, criar, não me canso de imitar
A originalidade é a verdade do poeta
Por isso no meio do caminho ainda tem
Aquela maldita pedra. Os novos poentes que 
vão procurar o editor na escuridão.
Eu, lavo as mãos pro destino: o que
pintar eu borro por cima com o verde do meu grito.

selfie moderna


quase um tanka


______________

i
amanheceu o dia
eu amanheci em palavras
e a vida amanheceu para si mesma.

ii
a noite e o crepúsculo
e os sonhos e os destinos:
alguém amou, alguém sorriu.

iii
lágrimas e outros sons
menos ruídos menos delírios
alguém disse o esquecido...

iv
com o pouco
se constrói
o muito!

v
a imaginação imagina
o possível do impossível