domingo, 15 de março de 2026

ROMANCE DA FILHA PORCA


—Pela escada de prata e gesso,

sobe o grito de Majuh,

entre o cheiro de incenso podre

e a sombra de um céu azul.

Dolores, mãe de granito,

guarda o fogo na algibeira:

 "Não saia, filha, que a noite

tem dentes de cordel e poeira."


"Cachorra!", grita a menina,

com lábios de sangue e sal,

"Vou dançar sobre as estrelas

e rir de todo o seu mal!"

A mãe, costurando o medo,

não chora, nem diz que não:

 "Filha que cospe na mãe

perde a pele de cristão."


A lua, monja de gelo,

estende o lençol na praça.

Majuh dança entre os rapazes,

com corpo de seda e graça.

Mas quando o relógio bate

as doze pontas do aço,

o rosto de rosa e vento

se quebra em um rudo cansaço.


Oh, que susto nas guitarras!

Que espanto na multidão!

Onde havia pés de moça,

há cascos sobre o chão.

Onde havia voz de flauta,

há um urro de animal:

Majuh já não é Majuh,

é a Cavala do mal.


Uma porca de olhos negros,

com alma de mulher-flor,

foge em fúria pelos montes,

carregando a sua dor.

Grunhe à lua que a ignora,

corre o campo em desatino,

com a marca da desobediência

selada em seu destino.


Pelas ruas de cal branca,

o som de um casco ecoou.

Dolores apaga a vela:

O bicho que o bicho criou.—

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