—Pela escada de prata e gesso,
sobe o grito de Majuh,
entre o cheiro de incenso podre
e a sombra de um céu azul.
Dolores, mãe de granito,
guarda o fogo na algibeira:
"Não saia, filha, que a noite
tem dentes de cordel e poeira."
"Cachorra!", grita a menina,
com lábios de sangue e sal,
"Vou dançar sobre as estrelas
e rir de todo o seu mal!"
A mãe, costurando o medo,
não chora, nem diz que não:
"Filha que cospe na mãe
perde a pele de cristão."
A lua, monja de gelo,
estende o lençol na praça.
Majuh dança entre os rapazes,
com corpo de seda e graça.
Mas quando o relógio bate
as doze pontas do aço,
o rosto de rosa e vento
se quebra em um rudo cansaço.
Oh, que susto nas guitarras!
Que espanto na multidão!
Onde havia pés de moça,
há cascos sobre o chão.
Onde havia voz de flauta,
há um urro de animal:
Majuh já não é Majuh,
é a Cavala do mal.
Uma porca de olhos negros,
com alma de mulher-flor,
foge em fúria pelos montes,
carregando a sua dor.
Grunhe à lua que a ignora,
corre o campo em desatino,
com a marca da desobediência
selada em seu destino.
Pelas ruas de cal branca,
o som de um casco ecoou.
Dolores apaga a vela:
O bicho que o bicho criou.—
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