terça-feira, 17 de março de 2026

Mar das Narrativas - conto

 

O mar não era feito de água, mas de uma substância densa, cinzenta e viscosa, composta por palavras mal ditas, exclamações interrompidas e o mofo de bibliotecas esquecidas. Ali, na beira do abismo geográfico que antes chamavam de litoral, o homem olhava o horizonte. Não havia barcos. Havia apenas frases boiando como carcaças de peixes metálicos.

O Naufrágio do Verbo

Ele se chamava Lucas, ou talvez fosse apenas um pronome sem nome, um "Ele" genérico vagando por uma metrópole que fedia a fumaça e a sintaxe quebrada. O governo havia proibido as metáforas. "Clareza é ordem", diziam os cartazes colados nos prédios de concreto bruto. Quem usasse um adjetivo fora de hora era fichado. Quem insistisse em poesia era exilado para as margens do Mar das Narrativas.

Lucas sentou-se na areia feita de pó de giz.

 

A Pesca de Sentidos

Ele lançou o anzol. Não buscava sustento biológico; buscava uma linha de raciocínio que fizesse sentido.

·         O primeiro puxão: Veio um parágrafo de um manual de instruções de um liquidificador de 1974. Seco. Inútil.

·         O segundo puxão: Uma declaração de amor escrita em guardanapo, tão encharcada de cinismo que se desfez ao toque do ar.

·         O terceiro puxão: Um grito. Literalmente. Uma interjeição física, vibrante, que pulava na areia tentando morder seu calcanhar.

"Ninguém mais lê o mar", disse uma voz ao lado.

Era um velho, o rosto sulcado como se tivesse sido revisado mil vezes por um editor cruel. O velho segurava uma garrafa vazia. Lá dentro, uma oração subordinada tentava desesperadamente encontrar a principal.

"O mar está subindo", continuou o velho, sem olhar para Lucas. "Ontem, as crônicas de costumes inundaram o bairro baixo. Hoje, os romances policiais estão batendo no joelho. Amanhã, seremos todos afogados por um épico mal acabado."


A Inundação Final

Lucas sentiu a umidade nos pés. Não era frio; era o peso de mil histórias não contadas pressionando sua pele. O céu, um teto de chumbo, parecia um ponto final prestes a cair sobre a cabeça de todos.

Ele percebeu que não adiantava fugir. A cidade atrás dele já era um amontoado de bulas de remédio e discursos políticos vazios. O Mar das Narrativas não era um lugar, era o destino de uma civilização que esqueceu como se conversa sem filtros.

Ele abriu a boca para dizer algo importante, algo que mudasse o rumo do conto, algo que desse um nó na garganta do leitor. Mas o que saiu foi apenas um ponto de interrogação, mudo e pesado, que afundou na areia antes mesmo de ser ouvido.

O mar avançou. Primeiro as vogais, depois as consoantes. No fim, restou apenas o branco da página.

 

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