O mar não era feito de
água, mas de uma substância densa, cinzenta e viscosa, composta por palavras
mal ditas, exclamações interrompidas e o mofo de bibliotecas esquecidas. Ali,
na beira do abismo geográfico que antes chamavam de litoral, o homem olhava o horizonte.
Não havia barcos. Havia apenas frases boiando como carcaças de peixes
metálicos.
O Naufrágio do Verbo
Ele se chamava Lucas, ou
talvez fosse apenas um pronome sem nome, um "Ele" genérico vagando
por uma metrópole que fedia a fumaça e a sintaxe quebrada. O governo havia
proibido as metáforas. "Clareza é ordem", diziam os cartazes colados
nos prédios de concreto bruto. Quem usasse um adjetivo fora de hora era
fichado. Quem insistisse em poesia era exilado para as margens do Mar das Narrativas.
Lucas sentou-se na areia
feita de pó de giz.
A Pesca de Sentidos
Ele lançou o anzol. Não
buscava sustento biológico; buscava uma linha de raciocínio que fizesse
sentido.
·
O primeiro puxão: Veio um parágrafo
de um manual de instruções de um liquidificador de 1974. Seco. Inútil.
·
O segundo puxão: Uma declaração de
amor escrita em guardanapo, tão encharcada de cinismo que se desfez ao toque do
ar.
·
O terceiro puxão: Um grito.
Literalmente. Uma interjeição física, vibrante, que pulava na areia tentando
morder seu calcanhar.
"Ninguém mais lê o
mar", disse uma voz ao lado.
Era um velho, o rosto
sulcado como se tivesse sido revisado mil vezes por um editor cruel. O velho
segurava uma garrafa vazia. Lá dentro, uma oração subordinada tentava
desesperadamente encontrar a principal.
"O mar está
subindo", continuou o velho, sem olhar para Lucas. "Ontem, as
crônicas de costumes inundaram o bairro baixo. Hoje, os romances policiais
estão batendo no joelho. Amanhã, seremos todos afogados por um épico mal
acabado."
A Inundação Final
Lucas sentiu a umidade nos
pés. Não era frio; era o peso de mil histórias não contadas pressionando sua
pele. O céu, um teto de chumbo, parecia um ponto final prestes a cair sobre a
cabeça de todos.
Ele percebeu que não
adiantava fugir. A cidade atrás dele já era um amontoado de bulas de remédio e
discursos políticos vazios. O Mar das Narrativas não era um lugar, era o
destino de uma civilização que esqueceu como se conversa sem filtros.
Ele abriu a boca para dizer
algo importante, algo que mudasse o rumo do conto, algo que desse um nó na
garganta do leitor. Mas o que saiu foi apenas um ponto de interrogação, mudo e
pesado, que afundou na areia antes mesmo de ser ouvido.
O mar avançou. Primeiro as
vogais, depois as consoantes. No fim, restou apenas o branco da página.
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