O Escritório
O relógio de parede, um legítimo carrilhão que viera de Hamburgo no século passado, batia as três da tarde com uma solenidade que parecia julgar quem o ouvisse. No escritório do Dr. Rodrigo Terra Cambará, o ar tinha um cheiro particular: uma mistura de fumo de corda, papel antigo e o suor honesto de quem lida com a terra.
O Palco das Decisões
Rodrigo não olhava para os papéis sobre a escrivaninha. Seus olhos vagavam pela janela, onde a praça da matriz de Santa Fé fervilhava sob um sol de mormaço. Ali dentro, o silêncio era uma entidade. As estantes, carregadas de códigos jurídicos e clássicos franceses, eram como sentinelas de uma ordem que o mundo lá fora começava a esquecer.
A Escrivaninha: Uma ilha de madeira maciça, manchada de tinta e de história.
A Cadeira: O couro gasto denunciava as décadas de esperas e de sentenças proferidas em voz baixa.
O Retrato na Parede: O olhar severo do antepassado, que parecia vigiar se a honra da família ainda estava sendo preservada entre aqueles quatro cantos.
O Peso do Sobrenome
Um bater de nós de dedos na porta interrompeu o fluxo de suas memórias. Era o velho Bento, o secretário que parecia fazer parte do mobiliário.
— Dr. Rodrigo, o rapaz da estância dos Angicos espera. Diz que é urgente.
Rodrigo suspirou. No escritório, a palavra "urgente" costumava ser apenas um sinônimo para "paixão" ou "vingança". Ele ajeitou o colarinho. Sabia que, uma vez cruzada aquela soleira, o destino de um homem, ou de uma família inteira, seria traçado por uma caneta tinteiro e um aperto de mão.
"A vida é um rascunho que a gente não tem tempo de passar a limpo no escritório de Deus", pensou ele, citando algo que ouvira na juventude.
O Crepúsculo das Letras
Enquanto o cliente entrava, trazendo consigo o cheiro de poeira da estrada, Rodrigo sentiu o peso dos seus sessenta anos. O escritório não era apenas um cômodo; era um confessionário laico. Ali, as fraquezas humanas eram catalogadas em pastas de papel pardo.
O sol começou a baixar, desenhando longas sombras de grades no chão de tábua corrida. Rodrigo abriu o tinteiro. A tinta preta era o sangue daquele lugar. Cada palavra escrita era um compromisso com o passado e uma dívida com o futuro.
— Sente-se, meu filho — disse Rodrigo, e sua voz tinha a gravidade de quem conhece o fim das histórias antes mesmo de elas começarem. — O que é que o traz ao escritório dos Cambará?
Lá fora, o vento minuano começou a assoviar nas frestas das janelas, como se quisesse participar da conversa. O tempo, esse velho escultor de destinos, continuava a girar as engrenagens do carrilhão alemão, indiferente às tragédias que se decidiam sobre o tapete persa desbotado.
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