terça-feira, 17 de março de 2026

A Liturgia do Asfalto e o Batismo de Sandra

A Liturgia do Asfalto e o Batismo de Sandra

Aos dezenove anos, Renan habitava o território da incerteza. O desejo, esse animal inquieto que não conhece repouso, conduzia seu carro pelas artérias de Recife, onde a noite se decompõe em promessas e perigos. Ele era um devoto da curiosidade, mas um escravo do receio; temia o escândalo tanto quanto ansiava pelo desconhecido. Observava as mulheres da rua como quem contempla um abismo, até que o destino, em uma madrugada de silêncios cúmplices, o colocou diante do trottoir solitário.

 

Ali estava Sandra. Não era a exuberância do silicone que a definia, mas uma humanidade mansa, um porto seguro no oceano do seu pavor. Ao entrar no veículo, ela não trouxe apenas o corpo, mas uma pedagogia do prazer.

 

— É a primeira vez? — indagou ela, com a sabedoria de quem lê a alma através do tremor das mãos no volante.

 

No motel, um recinto onde o tempo parece estagnar entre paredes descascadas, o ritual teve início. Renan era um feixe de nervos, um jovem perfumado confrontado com a crueza do próprio tesão. Sandra, com a paciência das sacerdotisas, despiu-o da armadura da ansiedade. Quando a nudez se tornou absoluta, a verdade se impôs: o falo dela, ereto e testemunha de outras batalhas, não era uma ameaça, mas um espelho.

 

Ele explorou aquela carne nova com dedos gélidos, enquanto ela o louvava com palavras de baixo calão que soavam como cânticos de acolhimento. O ato final, contudo, exigia uma cautela que beirava a paranoia. Renan, em um gesto de autoproteção quase místico, encapou-se com duas camadas de látex, como se quisesse colocar um muro entre sua linhagem e o mistério daquele corpo.

 

A invasão foi uma descoberta. Ao penetrar o templo de Sandra, o mundo exterior — o julgamento de Recife, o medo do carro ser visto, a moral da família — desintegrou-se. O prazer era um fluxo contínuo, uma dança de ancas e gemidos simulados para a feminilidade. E no auge daquela entrega, quando o sêmen reclamou sua liberdade, a barreira de látex traiu o seu criador.

 

As membranas romperam-se. O contato foi total, pele na pele, uma fusão líquida que Sandra recebeu com a naturalidade da terra que acolhe a chuva.

 

— Tu mijaste em mim, menino? — perguntou ela, rindo da abundância da vida que agora habitava suas entranhas.

 

O pânico de Renan, esse companheiro fiel, retornou para um último ato na pia do banheiro. Mas o encerramento daquela missa profana guardava uma surpresa. No retorno ao asfalto, antes do adeus, Sandra exigiu o beijo. Não o selinho protocolar, mas a troca de fôlegos, o encontro das línguas que sela o pacto entre dois estranhos.

 

Renan aceitou. E no gosto daquela boca, que já havia percorrido outros desertos naquela noite, ele descobriu que o sexo sem o beijo é uma frase sem verbo. Sandra partiu para a escuridão, deixando-o com o motor ligado e a alma batizada por um encontro que a memória jamais ousaria apagar.


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