A Liturgia do Asfalto e o Batismo de Sandra
Aos dezenove anos, Renan habitava o território da
incerteza. O desejo, esse animal inquieto que não conhece repouso, conduzia seu
carro pelas artérias de Recife, onde a noite se decompõe em promessas e
perigos. Ele era um devoto da curiosidade, mas um escravo do receio; temia o
escândalo tanto quanto ansiava pelo desconhecido. Observava as mulheres da rua
como quem contempla um abismo, até que o destino, em uma madrugada de silêncios
cúmplices, o colocou diante do trottoir solitário.
Ali estava Sandra. Não era a exuberância do silicone que
a definia, mas uma humanidade mansa, um porto seguro no oceano do seu pavor. Ao
entrar no veículo, ela não trouxe apenas o corpo, mas uma pedagogia do prazer.
— É a primeira vez? — indagou ela, com a sabedoria de
quem lê a alma através do tremor das mãos no volante.
No motel, um recinto onde o tempo parece estagnar entre
paredes descascadas, o ritual teve início. Renan era um feixe de nervos, um
jovem perfumado confrontado com a crueza do próprio tesão. Sandra, com a
paciência das sacerdotisas, despiu-o da armadura da ansiedade. Quando a nudez
se tornou absoluta, a verdade se impôs: o falo dela, ereto e testemunha de
outras batalhas, não era uma ameaça, mas um espelho.
Ele explorou aquela carne nova com dedos gélidos,
enquanto ela o louvava com palavras de baixo calão que soavam como cânticos de
acolhimento. O ato final, contudo, exigia uma cautela que beirava a paranoia.
Renan, em um gesto de autoproteção quase místico, encapou-se com duas camadas
de látex, como se quisesse colocar um muro entre sua linhagem e o mistério
daquele corpo.
A invasão foi uma descoberta. Ao penetrar o templo de
Sandra, o mundo exterior — o julgamento de Recife, o medo do carro ser visto, a
moral da família — desintegrou-se. O prazer era um fluxo contínuo, uma dança de
ancas e gemidos simulados para a feminilidade. E no auge daquela entrega,
quando o sêmen reclamou sua liberdade, a barreira de látex traiu o seu criador.
As membranas romperam-se. O contato foi total, pele na
pele, uma fusão líquida que Sandra recebeu com a naturalidade da terra que
acolhe a chuva.
— Tu mijaste em mim, menino? — perguntou ela, rindo da
abundância da vida que agora habitava suas entranhas.
O pânico de Renan, esse companheiro fiel, retornou para
um último ato na pia do banheiro. Mas o encerramento daquela missa profana
guardava uma surpresa. No retorno ao asfalto, antes do adeus, Sandra exigiu o
beijo. Não o selinho protocolar, mas a troca de fôlegos, o encontro das línguas
que sela o pacto entre dois estranhos.
Renan aceitou. E no gosto daquela boca, que já havia
percorrido outros desertos naquela noite, ele descobriu que o sexo sem o beijo
é uma frase sem verbo. Sandra partiu para a escuridão, deixando-o com o motor
ligado e a alma batizada por um encontro que a memória jamais ousaria apagar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário