A memória
é um labirinto de espelhos, e naquele trajeto de volta, o que meu marido e eu
buscávamos não era o caminho mais curto para casa, mas talvez um desvio para
dentro de nós mesmos. Dez anos de um matrimônio selado pelo silêncio cúmplice e
pela rotina mansa dos filhos haviam deixado a paixão em uma espécie de penumbra
respeitosa. O desejo, esse animal arisco, dormitava sob o peso das
responsabilidades.
A noite,
porém, exalava um mormaço denso, uma promessa de mundos submersos. Quando as
luzes parcas daquela rua desconhecida revelaram as silhuetas, o que vi não
foram apenas corpos, mas a própria encarnação do artifício elevado à categoria
de mito. Travestis. Seres que desafiavam a biologia com o rigor da vontade,
ostentando seios e quadris que pareciam esculpidos pela mão de um artesão
febril. Na penumbra das travessas, a nudez se oferecia sem pudor, um escândalo
de carne e desejo que, longe de me repelir, despertava em mim uma curiosidade
arcaica, quase metafísica.
O Ritual
da Descoberta
O que se
seguiu não foi apenas uma conversa, mas uma lenta capitulação. Voltamos ao
local, não mais como estrangeiros, mas como devotos de um mistério que exigia
proximidade. Naquela noite, após o segundo encontro visual, o sexo entre mim e
meu marido recuperou uma urgência esquecida, como se a visão daquela
ambiguidade tivesse destrancado uma porta proibida em nossa própria intimidade.
A decisão
de convidar "um deles" para o carro foi o nosso pacto de sangue.
Escolhemos a criatura que parecia conter em si o equilíbrio perfeito do
feminino simulado: pernas longas, cabelos castanhos como fios de seda e um
rosto pintado para a guerra da sedução. No claustro do automóvel, entre o
cheiro de estofado e o perfume barato, a fronteira entre o "nós" e o
"outro" dissolveu-se.
O Toque e a Epifania
No
silêncio do drive-in, a conversa cedeu lugar ao tato. Sob o olhar atento
e permissivo de meu marido, minha mão viajou pela pele daquela criatura. Era
uma maciez cultivada, um tributo aos hormônios e às ceras, uma feminilidade
construída com o sacrifício do próprio ser. Quando toquei seus seios —
pequenos, firmes, brotos de uma natureza inventada — senti um tremor que não
pertencia à razão.
O ápice
do nosso teatro privado ocorreu quando a minissaia subiu, revelando o que a
estética tentava ocultar. Ali estava o falo, depilado e impudente, desafiando a
minha concepção de mundo. Meu marido, em um gesto de generosidade quase
sacrificial, deu-me o aval:
—
"Se você quiser, benzinho, pode pegar. Tudo bem."
Minha
mão, hesitante como uma ave que teme o voo, foi conduzida pela mão dela. O
contato com aquele pênis estranho, pulsante e alheio à minha história, foi uma
revelação elétrica. Eu acariciava a alteridade sob o olhar do meu senhor, e
naquele movimento de masturbação, coreografado pelo próprio travesti, eu não
era mais a esposa ou a mãe; era apenas um corpo em diálogo com o proibido.
A recusa
ao convite da felação foi o meu último bastião de resistência, o limite onde a
curiosidade estancou diante do abismo. Mas quando o sêmen, morno e real,
escorreu sobre a minha pele, olhei para o meu marido. Nos olhos dele, vi o
reflexo de uma satisfação que transbordava o ato físico. Havíamos cruzado o
espelho, e o que encontramos do outro lado era uma verdade nova, tingida pelo
suor e pela luz das lanternas de uma rua esquecida por Deus, mas habitada pelo
desejo.
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