Prefácio à Primeira Edição de Poesias Inúteis
I
O infeliz acaso, ou talvez o hábito, impõe-me a tarefa de prefaciar este volume. O título, Poesias Inúteis, possui a cortesia de uma advertência e a precisão de um epitáfio. Schopenhauer observou que a música é a única arte que não precisa de um mundo para existir; o autor deste livro parece sugerir que a poesia, para ser pura, não precisa sequer de um leitor.
II
Percorrer estas páginas é exercitar uma forma de arqueologia do efêmero. Não encontraremos aqui a busca pela palavra exata (le mot juste), mas sim a aceitação da palavra que sobra. O autor, cujas iniciais prefiro omitir para não interromper seu mergulho no anonimato, compreendeu que a glória é uma incompreensão, e que o esquecimento é a forma mais polida do repouso.
III
O leitor notará, talvez com um sobressalto de reconhecimento, que esses poemas, feitos pelo tempo e pelo desperdício de tempo, não aspiram à solidez do monumento. São, antes, como as figuras que o acaso desenha nas nuvens ou as simetrias que o fogo propõe às cinzas antes de dispersá-las. Escrevê-los foi um modo de perder as horas sem a culpa da utilidade; lê-los será, sem dúvida, uma maneira elegante de partilhar essa perda.
Haverá quem critique a ausência de metáforas vigorosas ou de arroubos sentimentais. A esses, recordo que o universo é um labirinto onde o caminho mais curto entre dois pontos é sempre o silêncio.
IV
Ignoro se este livro sobreviverá à próxima terça-feira ou se acabará por se confundir com a vasta literatura apócrifa que povoa as bibliotecas dos meus sonhos. De qualquer modo, o gesto de N.N. é digno de nota: em um século que cultiva o estrondo e a eficácia, ele nos oferece o luxo supremo da inutilidade.
Entrego este volume ao acaso, que é, como todos sabemos, o pseudônimo que Deus utiliza quando prefere não assinar Suas obras.
Esses anjos de alvenaria, tingidos pelo sangue do crepúsculo e pelo pó da terra roxa, estendem suas asas de vigas sobre minha cabeça. Há uma nobreza na aspereza de suas superfícies, uma elegância na cinza que se torna escarlate ao toque do sol. Sou súdita desta arquitetura que não pede licença para existir, habitante de um reino onde o horizonte é uma muralha de fé e fundação.
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