terça-feira, 17 de março de 2026

PALAVRAS PARA POEMAS INÚTEIS

 



Prefácio à Primeira Edição de Poesias Inúteis

I

O infeliz acaso, ou talvez o hábito, impõe-me a tarefa de prefaciar este volume. O título, Poesias Inúteis, possui a cortesia de uma advertência e a precisão de um epitáfio. Schopenhauer observou que a música é a única arte que não precisa de um mundo para existir; o autor deste livro parece sugerir que a poesia, para ser pura, não precisa sequer de um leitor.

II

Percorrer estas páginas é exercitar uma forma de arqueologia do efêmero. Não encontraremos aqui a busca pela palavra exata (le mot juste), mas sim a aceitação da palavra que sobra. O autor, cujas iniciais prefiro omitir para não interromper seu mergulho no anonimato, compreendeu que a glória é uma incompreensão, e que o esquecimento é a forma mais polida do repouso.

III

O leitor notará, talvez com um sobressalto de reconhecimento, que esses poemas, feitos pelo tempo e pelo desperdício de tempo, não aspiram à solidez do monumento. São, antes, como as figuras que o acaso desenha nas nuvens ou as simetrias que o fogo propõe às cinzas antes de dispersá-las. Escrevê-los foi um modo de perder as horas sem a culpa da utilidade; lê-los será, sem dúvida, uma maneira elegante de partilhar essa perda.

Haverá quem critique a ausência de metáforas vigorosas ou de arroubos sentimentais. A esses, recordo que o universo é um labirinto onde o caminho mais curto entre dois pontos é sempre o silêncio.

IV

Ignoro se este livro sobreviverá à próxima terça-feira ou se acabará por se confundir com a vasta literatura apócrifa que povoa as bibliotecas dos meus sonhos. De qualquer modo, o gesto de N.N. é digno de nota: em um século que cultiva o estrondo e a eficácia, ele nos oferece o luxo supremo da inutilidade.

Entrego este volume ao acaso, que é, como todos sabemos, o pseudônimo que Deus utiliza quando prefere não assinar Suas obras.




Arquitetura do Espanto
O ângulo reto do dia se desfaz,
na parede, um tijolo de seio pulsa,
leite de cal que a sombra expulsa
sob o ritmo das horas fugazes.

Gira o mundo no seu eixo de vidro,
um cu de ovo onde o sol se deita,
geometria curva, clara e estreita,
no centro exato de um grito contido.

No pântano da carne, o silêncio ferve,
salta o sapo em bucetas de orvalho,
música úmida que o vento reserva
entre as frestas de um tempo sem galho.



Gacela da Manhã de Ferro
Pelos arcos do silêncio,
a luz não traz o trigo.
Traz uma manhã de ferro duro
que morde o pescoço do amigo.

O sol é um punhal de sombra
cravado na sede do rio;
os cavalos galopam sem pernas
sobre um mapa de mármore e frio.

Ninguém entende a ferida,
o metal que o sangue reclama,
quando a madrugada se deita
em uma cama que já não ama.

Ai, que manhã de ferro,
sem o verde, sem o sul!
Onde a morte guarda as chaves
de um céu de ossos e azul.



Sobre a Lua e sobre o Mel
Pela noite que se arrasta,
a lua chega chorando.
Traz cabelos de vento nu,
pelas serras galopando.
A terra, bicho de presságio,
sente o cheiro do pecado.

Ela busca os lábios dele,
onde o escuro se desfaz.
Lábios de doce mistério,
sabores que o mundo não traz.
Em sua boca cega e quente,
escorre o mel tropical.
Doçura de fruta madura,
ferida que não faz mal.

Mas o vento, que era livre,
agora traz um recado.
O fogo que ardia forte
deixou o chão devastado.
No poço da madrugada,
entre o medo e o desvelar,
só restam as cinzas do pau,
pra quem o amor quis queimar.

Ai, lua de vento nu!
Ai, mel que virou carvão!
O amor é um punhal de vidro
cravado no coração.



O Hino da Tarde e do Chão
Ó terra vasta, sob o céu sem fim aprisionada,
onde a manhã acorda com um grito de ouro!
Eu canto o mistério da tua relva sagrada,
milagre humilde, o mais rico tesouro.
Canto as gramas que tecem o tapete da história,
raízes cegas que prendem o presente ao passado,
cada folha um verso da tua imensa glória,
um exército verde, silencioso e sagrado.

Eu vi o pôr do sol brasileiro, a agonia do dia,
quando o horizonte se incendeia em sangue e rubi.
Não é uma morte, mas uma apoteose que se inicia,
um altar de fogo que se ergue sobre o que vivi.
O sol, monarca que se despede em majestade,
derrama sobre as selvas e o mar o seu manto,
transformando a tarde em uma eternidade,
um momento de silêncio, de temor e de espanto.

E nessa hora em que a luz do mundo balança,
quando a sombra do mundo nos tenta abraçar,
uma clareza maior nos invade, uma esperança,
que a noite não consegue, jamais, apagar.
É a luz infinita do amor de Deus, o sol que não se põe,
que brilha além do visível, além do quebrado,
o farol que nos guia, o braço que nos impõe,
a certeza de sermos, por Ele, amados.

Ela é mais quente que o sol do trópico, e mais pura,
atravessa a selva, a montanha e o coração mortal.
A luz que nos cura, a luz que nos segura,
o amor que nos une ao Pai celestial.




O Altar do Vazio
A luz mente.
Só a sombra é fiel,
pois não exige nada do que somos.
Ela é a túnica que o mundo veste
quando finalmente se cala.

Bendito seja o frio,
que devolve ao homem o seu contorno.
No gelo, o espírito se torna pedra
e a carne deixa de arder.

A neve cai,
lençol de silêncio sobre a angústia.
Ela apaga os caminhos que não levam a nada
e deixa apenas a brancura do nada.

Amo a minha tristeza.
Ela é o meu único bem,
a única oração que Deus escuta
no deserto onde não há ninguém.



Versos espartanos casuais
A vida é um filme ruim, sem nexo e sem roteiro,
Onde a morte é o clímax, e o diretor um trapaceiro.
Buscamos um sentido, uma luz, um sinal qualquer,
Mas no final só restam dívidas, a sósia e o chofer.

Se Deus existe, é um sujeito de humor bem duvidoso,
Que nos criou para sofrer, e ainda acha isso glorioso.
O universo se expande, a entropia nos devora,
E eu aqui preocupado se trancaram a porta lá fora.



O Mapa da Poeira
Bem, a estrada do amor tem um pedágio de vidro,
Onde o ontem é um fantoche que se recusa a morrer.
O sol é um moicano de ouro, num céu esquecido,
E ninguém te pergunta o que você veio fazer.

A vida é uma roleta reta, sem curva ou sinal,
Com pregadores de plástico vendendo o perdão.
Mas se o vento sopra forte e o juízo é final,
É só o brilho do sol queimando o teu pé no chão.




O Salão do Caos
Os profetas vendem ingressos na esquina
Enquanto a chuva de mercúrio cai,
Tem arcanjos azulados em israel
E o trem do juízo que nunca sai.

As meninas cantando hinos de neon,
Americanas nuas sob o sol de metal,
O relógio parou no meio do tom,
No baile de máscaras do bem e do mal.

Não adianta pedir o mapa, bicho,
A bússola quebrou na mão do pirata,
O mundo é doido, cara,
E a verdade é uma nota de prata.


O Sacrifício do Ébano Índigo
Ele veio da palidez das névoas do norte,
Com uma herança de mármore e dogmas gélidos.
Mas seus olhos tropeçaram no mistério da beleza,
Nela, cujo tom de pele desafiava o próprio breu,
Uma tez tão profunda, tão rica em pigmento,
Que o sol, ao tocá-la, devolvia um brilho azulado,
Como o cobalto das profundezas ou o céu antes do trovão.

"É feitiço", rosnaram os patriarcas de linho branco.
"É pecado", sussurraram os clérigos de línguas secas.
A sociedade, esse monstro de mil bocas de gesso,
Cuspiu sentenças sobre o tapete da tradição.

Ela, forjada no fogo da desconfiança secular, riu.
Um riso de obsidiana, cortante e descrente:
"Você busca apenas o exótico na minha noite?
Seu amor murchará quando o primeiro insulto ecoar."

Mas ele não recuou para o conforto do seu castelo.
Ele despiu-se da linhagem como quem troca de pele morta:
Repudiou o sobrenome que cheirava a chicote e posse,
Queimou os mapas que dividiam o mundo em "nós" e "eles",
E deixou para trás os altares que pregavam um deus de uma cor só.

Diante do altar da floresta e do asfalto hostil,
Ele provou que o sangue é apenas um rio que busca o mar.
Onde havia o muro da família, ele plantou o silêncio do desdém.
Onde havia o dogma, ele escolheu o culto ao seu azul.

No final, sob o olhar benevolente do Amor
Eles não apenas sobreviveram; eles floresceram.
E da união do marfim renunciado com o ébano profundo,
Brotaram frutos de bronze e amêndoas,
Crianças cujos olhos carregam o brilho de novos mundos,
Rindo das cinzas de uma sociedade que já não pode alcançá-los.



A Senda 
Pela encruzilhada do tempo, a jornada se resume:
Esqueça o medo do poço final, morte que consome,
Pois o ciclo não termina onde a terra nos devora.
Toda raiz busca o sol para o seu sustento,
E no cálice da aurora, o espírito se renova.
Beba da fonte sagrada de Deus, beba do momento,
Pois a cada amanhecer, a vida é uma taça de luz
Que transborda a benção de todos os santos.



A Liturgia do Cimento
Ergo os olhos para a verticalidade 
desta aldeia de titãs, onde
 o gesso e o ferro reclamam
 uma ancestralidade que 

o tempo ainda não ousou nomear. 
Não vejo apenas edifícios; 
vejo o triunfo da vontade humana 
esculpido em ângulo reto, 
uma oração de brita e suor que 
desafia a gravidade dos dias.

São Paulo não é cidade, 
é um testamento de geometria. 
O concreto aqui não é mudo;
 ele murmura crônicas de imigrantes

 e deuses anônimos. 
Sinto-me sitiada, não pelo
 cárcere, mas por uma guarda 
celestial de força bruta: são

 os muros de arcanjos vermelhos
 que me rodeiam, sentinelas de
 terracota e fuligem que protegem 
o coração pulsante da metrópole.

Esses anjos de alvenaria, tingidos pelo sangue do crepúsculo e pelo pó da terra roxa, estendem suas asas de vigas sobre minha cabeça. Há uma nobreza na aspereza de suas superfícies, uma elegância na cinza que se torna escarlate ao toque do sol. Sou súdita desta arquitetura que não pede licença para existir, habitante de um reino onde o horizonte é uma muralha de fé e fundação.




O Verbo em Carne de Caatinga
No altar do Sertão, o léxico se apruma,
Onde o bardo do Sol guarda a estrutura,
Da língua que na pedra se faz cura,
E o vício do desleixo desengoma.

São eles, do Nordeste, a mão que doma
A sintaxe fidalga, a arquitetura;
Em cada frase, a rima se aventura
A ser do idioma a mais fiel coluna.

Pois o falar de lá, em solo rudo,
É a pedra viva de um sagrado ensejo,
Do amor de Deus por este chão de tudo.

No Brasil, o Nordeste é o espelho,
Que em vernáculo puro, heróico e mudo,
Ergue o idioma como um dom vermelho.




O Fruto Dilatado
A Bahia não se oferece como um cartão postal,
Mas como um fruto que amadurece na penumbra.
Sua beleza reside na resistência da própria carne,
Um corpo que sobreviveu à história e agora respira
Um tempo que o resto do mundo esqueceu.

O baiano é o guardião dessa dignidade sombria.
Sua gentileza não é a máscara da servidão,
Mas a lucidez de quem conhece a fragilidade do outro.
Há neles uma estranha e legal alegria,
Que não ignora a dor, mas a utiliza como fertilizante.

Seu movimento é intrinsecamente erótico,
Não como luxúria vazia, mas como a pulsão fundamental
Que une o visível ao invisível, o sangue ao sagrado.
Eles estão, paradoxalmente, elevados à vida
Pelo peso exato da terra que os sustenta.



Expresso do Amor
Diz-se que o amor é um comboio que não admite atrasos mas a verdade nua e crua é que os passageiros nunca sabem ao certo em que apeadeiro devem descer e ali ficam a olhar pela janela as paisagens que passam a correr como se a vida fosse um borrão de cores sem nome, acontece que o homem e a mulher entraram na carruagem sem bilhete de regresso porque quem ama de verdade não faz planos de voltar para onde já foi infeliz, e o revisor que é o tempo esse senhor de farda gasta e olhar severo passa por eles e não pede as passagens porque sabe que o preço já foi pago em saudades e esperas vãs, o expresso do amor range nas curvas do destino e sacode as certezas mais sólidas mas eles seguem de mãos dadas enquanto o metal das rodas canta uma canção de ferro e fogo, não se pense todavia que este comboio tem destino traçado num mapa de papel pois o trilho se inventa à medida que o motor do peito pulsa, e se porventura a máquina parar numa estação deserta onde o frio aperta os ossos bastará o calor de um olhar para que as caldeiras se acendam de novo, porque no fim de todas as viagens o que importa não é a chegada mas sim o modo como soubemos sentar-nos um ao lado do outro sem perguntar quanto falta para o fim, o amor meu senhor é um transporte de risco mas é o único que nos leva a sítios onde os pés nunca saberiam chegar sozinhos.



O Mapa dos Afetos 
(Campinas)
Sob o rigor das ruas, o plano se desenha,
Onde a cidade é um corpo de cal e de luz,
Mulheres-flores brotam, em rito que conduz
A seiva do asfalto à mão que as desdenha.

Em cada praça, um mastro, a prumo e senha:
Homens-navios belos, que o vento seduz,
Cargueiros de sonhos que o trilho traduz,
Buscando no porto a paz que se obtenha.

O espaço se fecha em ângulos de retina,
Geometria exata de um desejo que ensina
Que o amor é o traço que o muro não domina.

E no vértice oculto onde a pressa termina,
Explodem os beijos de esquinas raras,
Limpando do tempo as sombras mais amargas.




A Crônica do Limo e da Linhagem
O meu avô trouxe de Alepo o silêncio das areias,
Mas encontrou aqui um mundo que lateja e se expande.
O Oriente era um espelho quebrado no meio do rio,
Refletindo o rosto de homens que o tempo não abranda.

No oco da tora, onde a umidade tece o seu ninho,
Mora o mistério que a vista estrangeira mal entende:
Há o sapo em bucetas de árvores, úmido e sozinho,
Gritando um presságio que a própria selva compreende.

Não há pureza sob este sol que nos devora as pálpebras,
Somente corpos entregues ao torpor da canoa,
Vimos o cu azulado pelo olho tropical das águas,
Enquanto a balsa do destino, pesada, ressoa.

Somos filhos dessa mistura de barro com fumaça,
Onde a seda se perde no meio da mata fechada,
E a vida, como o rio, é uma corrente que passa,
Deixando apenas a margem da alma, sempre cansada.



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