quarta-feira, 18 de março de 2026

Érico e os Labirintos de Carne na Rua Augusta - conto

 


A primeira vez que ouvi o nome de Érico foi em um sebo poeirento na Rua Riachuelo, no Rio, por volta de 1984. O Brasil vivia aquele rabo de foguete da ditadura, uma abertura que parecia mais uma ferida cicatrizando mal. Lembro-me de um poeta piauiense, que vivia de traduzir manuais de instruções, me dizendo: "Você já leu o cego da Augusta? O cara é um monstro. Ele enxerga o que a gente só tateia no escuro."

Érico não era um místico, embora os críticos da Folha tentassem rotulá-lo assim. Ele era um operário do desejo. Vivia em um apartamento de um quarto no Edifício Copan, em São Paulo, um desses lugares onde o silêncio é impossível e a solidão é coletiva. Diziam que ele perdeu a visão aos doze anos, num acidente com fogos de artifício em uma festa de Santo Antônio, no interior da Bahia. Chegou a São Paulo com uma máquina de escrever Olivetti Lettera 32 e uma obsessão: cartografar o sexo.

Ele não escrevia sobre o amor romântico das novelas. A poesia de Érico era sobre o suor que escorre pelo sulco das nádegas num quarto de hotel barato, sobre o estalo da saliva no encontro de duas bocas famintas, sobre o cheiro de látex e desespero. Ele usava a máquina de escrever como se fosse um piano de percussão, os dedos calejados batendo nas teclas com uma precisão cirúrgica.

"A escuridão não é o vazio," ele escreveu uma vez em um manifesto que circulou em cópias mimeografadas. "A escuridão é um relevo. O sexo é a única linguagem que não precisa de luz para ser lida."

O sucesso de Érico no Brasil foi uma anomalia. Seus livros, com títulos como Geometria da Pélvis e O Ofício das Glândulas, eram vendidos em bancas de jornal ao lado de revistas pornográficas de quinta categoria. Mas quem lia, percebia o abismo.

·         As Prostitutas: Eram suas maiores fãs e protetoras. Elas subiam ao seu apartamento não para transar — embora o fizessem às vezes, por cortesia da casa —, mas para ler para ele. Elas liam os clássicos que ele não podia acessar, e em troca, ele escrevia sonetos sobre a anatomia delas que as faziam chorar.

·         Os Intelectuais: Olhavam-no com uma mistura de inveja e nojo. Tentaram enquadrá-lo no "Realismo Sujo", mas Érico era sujo demais até para os realistas. Ele era barroco. Um barroco de fluidos corporais.

"...e sob o lençol de linho barato, sua vulva é uma orquídea de carne e mistério, um mapa de nervos que meu dedo percorre, como um exilado retornando à pátria, cego de luz, mas vidente de prazer..."

Eu o encontrei uma única vez, em um bar na Praça da República. Ele usava um terno de linho amassado e óculos escuros que pareciam duas jabuticabas podres. Estava acompanhado de uma travesti maravilhosa que lia para ele, em voz alta, um trecho de Os Detetives Selvagens (que acabara de sair em uma tradução pirata).

Érico não sorria. Ele inclinava a cabeça, captando o som do tráfego, o cheiro de fumaça de cigarro e o pulsar da cidade. Ele parecia estar sempre esperando um sinal, uma vibração no ar que lhe permitisse ditar o próximo verso.

Dizem que ele morreu em 1990, logo após o Plano Collor, de uma tristeza súbita ou de excesso de vida. Seu apartamento foi esvaziado e sua Olivetti sumiu. Mas, de vez em quando, nos banheiros das faculdades de letras ou nos bordéis do centro de São Paulo, ainda se encontra algum verso de Érico riscado na parede. Versos que lembram que, mesmo na escuridão total, a carne ainda é o único farol que resta.

 

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