quarta-feira, 18 de março de 2026

LÁZARO HERRERA (1971-2016)

 

LÁZARO HERRERA (1971-2016)

Embora sua obra tenha sido quase inteiramente composta no Brasil, a voz de Lázaro Herrera pertence àquela linhagem de poetas venezuelanos que, formados sob o sol implacável de Maracaibo, trouxeram para o exílio uma melancolia metálica e uma obsessão pela carne que nenhuma chuva tropical jamais conseguiu aplacar. Herrera nasceu em Cabimas, no estado de Zulia, em uma família de petroleiros que via a literatura como uma forma de desvio mental perigoso. Aos vinte anos, após uma briga violenta com o pai, Lázaro fugiu para a Colômbia, e de lá iniciou uma peregrinação que o levaria a Manaus, Belém e, finalmente, ao centro de São Paulo.

 

Foi no caos cinzento da Praça da República, em um quarto de pensão que cheirava a mofo e rumare, que Herrera encontrou seu destino. Ele não escrevia sobre a pátria perdida (assunto que considerava burguês) ou sobre a revolução bolivariana (assunto que considerava um "estupro da lógica"). Ele escrevia sobre mulheres. Mas não sobre mulheres de carne e osso; sua obsessão eram as divindades da tela, as musas que habitavam as revistas pornográficas de segunda categoria que ele colecionava com o zelo de um arqueólogo.

 

O Advento de Pamela

Sua vida mudou em 1999, ao ver um clipe pirata de Pamela Butt. Para Herrera, ela não era uma atriz; era uma revelação barroca. Ele via em sua performance uma "liturgia de glândulas e desespero", uma "arquitetura de suor que desafiava a gravidade". Deixou de escrever sonetos e passou a datilografar, em uma fúria mística, poemas que tentavam capturar a essência da "esplendorosa que faz o ferro duro montanha".

 

Suas obras dessa época, como O Eclipse da Pélvis e Elegias ao Útero de Gesso, são compostas por versos longos, rítmicos, que misturam uma erudição de quem leu todos os clássicos gregos com uma sordidez de quem viveu todas as noites no centro de São Paulo. O crítico literário Marcelo Silva, em um dos raros momentos em que notou a existência de Herrera, descreveu sua obra como "um erro tipográfico entre a santidade e a sarna".

 

"Não busco o perdão," Herrera escreveu em um manifesto nunca publicado. "Busco o momento exato em que a carne, sob a pressão de Pamela, torna-se uma cordilheira de silêncio e espasmo."

 

A Queda e a Profecia

Lázaro Herrera nunca conheceu Pamela Butt. Sua adoração era estritamente ótica e espiritual. Nos últimos anos de sua vida, já debilitado pela tuberculose e por uma dieta à base de pisco barato e sonhos, ele passou a viver em uma tenda improvisada nas ruas do Pari, no centro de São Paulo. Dizem que, em seus delírios finais, ele não via a cidade, mas um deserto onde Pamela Butt, gigante, caminhava sobre as nuvens, transformando o horizonte em uma paisagem de músculo e prazer.

 

Ele morreu em uma noite chuvosa de 2016. Seu corpo foi encontrado ao lado de sua Olivetti Lettera 32, que ainda mantinha, preso ao rolo, o último poema incompleto. Os versos finas tentavam descrever uma Pamela Butt vidente, cujos olhos não pediam desculpas, mas que serviam de farol para os desterrados do desejo. Sua obra permanece inédita, guardada em uma caixa de papelão no porão de uma livraria no centro, aguardando o dia em que alguém o reconheça não como um pornógrafo, mas como o último romântico visceral venezuelano-paulistano.




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