domingo, 15 de março de 2026

A CAVALA

 

A CAVALA

Personagens:

·         DOLORES: Uma mãe vestida de luto fechado, com olhos de cinza.

·         MAJUH: Uma jovem com lábios de romã e pés impacientes.

·         A LUA: Uma figura branca que observa da janela.


Cena Única

(Interior de uma casa de cal branca. Paredes nuas. Um silêncio de facas. Dolores costura um lençol que parece uma mortalha. Majuh se pinta diante de um espelho quebrado.)

MAJUH: O vento está soprando cheiro de jasmim e suor de jumento, mãe. A festa na praça já começou e eu sinto o ritmo nos meus ossos.

DOLORES: (Sem erguer os olhos) Uma moça de respeito não ouve o vento. Ouve o tique-taque do relógio e o som da própria agulha. Sente-se, Majuh. A noite é um lobo faminto.

MAJUH: (Gritando) Pois que me coma o lobo! Eu não sou pano de altar para ficar guardada em gaveta. Você quer me secar como uma uva no sol, sua velha cachorra!

DOLORES: (Para de costurar. O silêncio pesa como chumbo.) Cachorra... A boca que mamou no meu peito agora morde a mão que a criou. Escute bem, Majuh: o sangue que desobedece azeda nas veias. Filhas que cospem no rosto das mães não terminam como mulheres. Viram criaturas. O bicho que habita o seu orgulho vai devorar a sua pele.

MAJUH: (Rindo com escárnio) Prefiro ser bicho no mato do que santa no presídio! Eu vou sair, Dolores. Com ou sem a sua bênção, eu vou dançar até que a lua se apague!

(Majuh sai batendo a porta. Dolores levanta-se e acende uma vela negra.)

DOLORES: Que os cascos batam onde o pé pisou. Que o focinho cresça onde o riso brilhou. À meia-noite, o espelho dirá quem você é.


(Praça da Aldeia. Música de violões e palmas. Majuh dança freneticamente no centro de um círculo. O relógio da torre começa a bater: DOZE BADALADAS.)

MAJUH: (Sentindo a garganta apertar) O ar... o ar tem gosto de lama e farelo! Por que me olham assim?

(A música para. O povo recua horrorizado. A luz da lua incide sobre Majuh. Seus dedos se fundem, sua coluna arqueia-se com um estalo seco. O rosto de porcelana se alonga em um focinho grotesco.)

UM RAPAZ: Vejam! Não é uma moça! É uma besta!

MAJUH: (Tentando gritar "Mãe", mas emitindo um grunhido profundo e gutural) Oinc... Oinc...

(Majuh agora é A CAVALA: um ser híbrido, uma porca terrível e imensa com olhos humanos cheios de lágrimas. Ela solta um urro de desespero e parte em disparada, derrubando mesas, rasgando o silêncio da noite com o bater de seus cascos desajeitados sobre as pedras da rua.)

DOLORES: (Voz em off, como um eco) Corra, minha filha. Corra até que a aurora te encontre de joelhos na lama. Pois quem não quis a casa, agora tem o mundo para vagar... mas sem voz para pedir perdão.

(A luz apaga-se. Ouve-se apenas o som de cascos e grunhidos sumindo na distância.)

FIM

 

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