A CAVALA
Personagens:
·
DOLORES: Uma mãe vestida de luto fechado, com olhos de
cinza.
·
MAJUH: Uma jovem com lábios de romã e pés impacientes.
·
A LUA: Uma figura branca que observa da janela.
Cena Única
(Interior de
uma casa de cal branca. Paredes nuas. Um silêncio de facas. Dolores costura um
lençol que parece uma mortalha. Majuh se pinta diante de um espelho quebrado.)
MAJUH: O
vento está soprando cheiro de jasmim e suor de jumento, mãe. A festa na praça já
começou e eu sinto o ritmo nos meus ossos.
DOLORES:
(Sem erguer os olhos) Uma moça de respeito não ouve o vento. Ouve o tique-taque
do relógio e o som da própria agulha. Sente-se, Majuh. A noite é um lobo
faminto.
MAJUH:
(Gritando) Pois que me coma o lobo! Eu não sou pano de altar para ficar
guardada em gaveta. Você quer me secar como uma uva no sol, sua velha cachorra!
DOLORES:
(Para de costurar. O silêncio pesa como chumbo.) Cachorra... A boca que mamou
no meu peito agora morde a mão que a criou. Escute bem, Majuh: o sangue que
desobedece azeda nas veias. Filhas que cospem no rosto das mães não terminam
como mulheres. Viram criaturas. O bicho que habita o seu orgulho vai devorar a
sua pele.
MAJUH:
(Rindo com escárnio) Prefiro ser bicho no mato do que santa no presídio! Eu vou
sair, Dolores. Com ou sem a sua bênção, eu vou dançar até que a lua se apague!
(Majuh sai
batendo a porta. Dolores levanta-se e acende uma vela negra.)
DOLORES:
Que os cascos batam onde o pé pisou. Que o focinho cresça onde o riso brilhou. À
meia-noite, o espelho dirá quem você é.
(Praça da
Aldeia. Música de violões e palmas. Majuh dança freneticamente no centro de um
círculo. O relógio da torre começa a bater: DOZE BADALADAS.)
MAJUH:
(Sentindo a garganta apertar) O ar... o ar tem gosto de lama e farelo! Por que
me olham assim?
(A música
para. O povo recua horrorizado. A luz da lua incide sobre Majuh. Seus dedos se
fundem, sua coluna arqueia-se com um estalo seco. O rosto de porcelana se alonga
em um focinho grotesco.)
UM RAPAZ:
Vejam! Não é uma moça! É uma besta!
MAJUH:
(Tentando gritar "Mãe", mas emitindo um grunhido profundo e gutural) Oinc... Oinc...
(Majuh
agora é A CAVALA: um ser híbrido, uma porca terrível e imensa com olhos humanos
cheios de lágrimas. Ela solta um urro de desespero e parte em disparada,
derrubando mesas, rasgando o silêncio da noite com o bater de seus cascos
desajeitados sobre as pedras da rua.)
DOLORES:
(Voz em off, como um eco) Corra, minha filha. Corra até que a aurora te
encontre de joelhos na lama. Pois quem não quis a casa, agora tem o mundo para
vagar... mas sem voz para pedir perdão.
(A luz
apaga-se. Ouve-se apenas o som de cascos e grunhidos sumindo na distância.)
FIM
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