O Altar da Praça Deserta
A noite de Renan não era feita de carne, mas de ausência. Aos vinte e cinco anos, o corpo desenhado por tintas e contornos precisos carregava o peso da rejeição sumária. O ônibus, esse carrasco de metal, o havia depositado no umbral do desejo negado. A desculpa dela — o cansaço, a aurora precoce, o latejar da têmpora — ecoava como um decreto de solidão. Restava-lhe a bebida, esse elixir cítrico e barato que queima a garganta mas acalma o espírito, e a fumaça que subia aos céus como um incenso profano.
Eram duas da manhã. A praça, uma bacia de sombras e silêncio, acolhia o jovem tatuado. Foi quando a silhueta emergiu do breu. Não era apenas uma mulher; era uma aparição estrangeira, uma viajante de terras distantes que buscava, na grama úmida, a precisão das horas.
— Que horas são? — a voz dela, tingida por sotaques de outras fronteiras, buscou o tempo no relógio morto de Renan.
Ele, blindado pela embriaguez e pelo desdém do celular sem vida, negou-lhe a cronologia. Ela, em um gesto de agradecimento mudo, ofereceu-lhe o arco do próprio corpo ao partir, um movimento que despertou no homem o ímpeto animal que a cidade tentara domesticar.
No recolhimento dos arbustos, onde o homem busca a terra para aliviar a própria natureza, o desejo se manifestou rígido e impaciente. E lá estava ela de novo, a espectadora do crepúsculo. Um aceno de cabeça foi o pacto. Não precisavam de nomes, apenas de rituais.
— Como posso te ajudar? — a pergunta dela era um convite ao abismo.
Renan, em vez de palavras, ofereceu o próprio centro. Ela, sem a hesitação dos fracos, ajoelhou-se como se estivesse diante de um altar. As mãos dela, exploradoras de um território novo, percorreram a pele dele como se lessem um mapa. O rosto dela contra a carne dele era a união do sagrado com o efêmero.
— Prepare-se — sussurrou ela, uma promessa de glória — para o melhor que a vida pode te dar agora.
O que se seguiu foi uma batalha de sentidos. Renan já não era apenas o homem enganado pela namorada; era um conquistador que reclamava a garganta daquela estranha como se fosse sua terra por direito. A timidez dela deu lugar à volúpia dos olhos revirados, ao desafio do prazer sem misericórdia.
No ápice, quando a alma de Renan ameaçava transbordar, ela o acolheu por inteiro. Foi um mergulho profundo, onde a língua dela, ágil e invasiva, tocou as fronteiras de sua existência, provocando um arrepio que não pertencia a este mundo. O gozo foi a assinatura final do encontro.
Ela levantou-se, senhora de si, limpando nos lábios o rastro daquela oferenda. Partiu para a escuridão, deixando Renan com o silêncio da praça e a certeza de que as noites mais escuras são as que escondem os maiores encontros.
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