O
Apartamento do Sexo
O anúncio
estava lá, no rodapé da página de classificados, espremido entre ofertas de
pílulas contra calvície e anúncios de videntes que prometiam trazer o amor de
volta em três dias. Era breve, direto, quase rude: "Aluga-se Apartamento
do Sexo. Tratar no local." Sem telefone, sem endereço exato, apenas uma
seta desenhada a mão apontando para uma rua estreita e escura, onde a umidade
parecia brotar das paredes descascadas dos prédios vizinhos.
Marcos,
um bancário de meia-idade com olhos que pareciam ter visto demasiadas planilhas
e pouco sol, encontrou o anúncio por acaso. Ele estava em um desses dias em que
a rotina pesa como um casaco de chumbo, e a vida sexual com a esposa, se é que
se podia chamar assim, resumia-se a um ritual mecânico e bissemanal, tão desprovido
de paixão quanto preencher um formulário de imposto de renda. O anúncio, com
sua promessa explícita e misteriosa, fisgou-o como um anzol em uma ferida
aberta.
A seta o
levou a um edifício que parecia estar se desintegrando, uma ruína de concreto e
ferro enferrujado que parecia ter sido abandonada há décadas. A porta de
entrada estava entreaberta, revelando um corredor escuro e úmido que cheirava a
mofo e desinfetante barato. Marcos hesitou, o coração martelando contra as
costelas como um pássaro enjaulado. O que ele estava fazendo ali? O que ele
esperava encontrar?
Ele subiu
as escadas rangentes, cada passo ecoando no silêncio opressivo do prédio. No
terceiro andar, encontrou a porta do apartamento. Não havia placa, nem número,
apenas uma fresta de luz que escapava por baixo da porta e um murmúrio abafado
que soava como... gemidos?
Marcos
bateu na porta, sua mão tremendo levemente. A porta se abriu lentamente,
revelando uma mulher de olhos cansados e sorriso amargo. Ela usava um roupão de
seda desgastado que não escondia a flacidez de seu corpo, e segurava um cigarro
aceso entre os dedos amarelados pela nicotina.
— Você
veio pelo anúncio? — perguntou ela, sua voz rouca e sem emoção.
Marcos
assentiu, incapaz de falar. A mulher se afastou, convidando-o a entrar. O
apartamento era pequeno e claustrofóbico, cheio de móveis velhos e empoeirados.
O ar estava pesado com o cheiro de sexo e cigarro, um odor nauseante que
parecia impregnar tudo ao redor.
No centro
da sala, havia uma cama de casal desarrumada, onde um casal de jovens, com
rostos ocultos pelas sombras, se entregava a um ato de paixão desesperada. Eles
não pareciam notar a presença de Marcos ou da mulher, imersos em seu próprio
mundo de prazer e dor.
— Aqui é
o Apartamento do Sexo — disse a mulher, sua voz soando como um sussurro
distante. — Um lugar onde as pessoas vêm para escapar da realidade, para dar
vazão aos seus desejos mais obscuros, para se perderem na carne e no prazer.
Marcos
olhou para o casal na cama, sentindo uma mistura de nojo e fascinação. Ele via
neles a paixão que ele havia perdido, a intensidade que ele tanto desejava. Mas
também via a desesperança, a solidão, a busca incessante por algo que nunca
parecia ser suficiente.
— E você?
— perguntou ele, voltando-se para a mulher. — O que você ganha com isso?
A mulher
sorriu amargamente, expelindo uma nuvem de fumaça de seu cigarro.
— Eu
ganho a vida, meu jovem. Eu alugo este apartamento para aqueles que precisam
desesperadamente de uma fuga, de um momento de prazer em meio ao caos de suas
vidas. E eu assisto, eu observo, eu me torno parte de suas fantasias, de seus
segredos, de suas dores.
Ela se
aproximou de Marcos, seus olhos cansados fixos nos dele.
— E você?
O que você busca? O que você espera encontrar neste Apartamento do Sexo?
Marcos
não sabia o que responder. Ele buscava a paixão, a intensidade, a vida que ele
sentia estar escapando por entre seus dedos. Mas ele também buscava a fuga, a
anulação de si mesmo, a imersão em um mundo onde nada mais importava além do
prazer momentâneo.
Ele olhou
para a cama, para o casal emaranhado em lençóis sujos e suados. Ele viu neles o
espelho de sua própria alma, a imagem de sua própria busca desesperada por
significado em um mundo que parecia ter perdido todo o sentido.
— Eu não
sei — sussurrou ele, sua voz tremendo. — Eu acho que eu não sei mais o que eu
busco.
A mulher
sorriu novamente, um sorriso que parecia conter toda a sabedoria e a dor do
mundo.
— Ninguém
sabe, meu jovem. Ninguém sabe. Estamos todos perdidos, todos buscando algo que
não conseguimos encontrar. E este apartamento, com seu cheiro de sexo e
desespero, é apenas mais um lugar onde tentamos nos encontrar, ou nos perder de
vez.
Ela se
afastou de Marcos, voltando-se para a janela empoeirada que dava para a rua
escura e úmida.
— Você
pode ficar, se quiser. A cama está livre. Os jovens já terminaram. E eu estarei
aqui, observando, assistindo, tornando-me parte de sua história, de sua
fantasia, de sua dor.
Marcos
olhou para a cama vazia, para os lençóis amassados e sujos. Ele sentiu um arrepio
percorrer sua espinha, uma sensação de medo e desejo que parecia paralisá-lo.
Ele queria fugir, correr para longe daquele lugar sombrio e opressivo. Mas ele
também queria ficar, se entregar ao prazer momentâneo, se perder na carne e no
esquecimento.
Ele deu
um passo em direção à cama, seu coração batendo como um tambor no peito. Ele
não sabia o que o esperava, o que ele encontraria naquele Apartamento do Sexo.
Mas ele sabia que não havia volta, que ele havia cruzado uma fronteira de onde
não havia retorno. E ele estava pronto para se perder, para se anular, para se
tornar parte daquele mundo de prazer e dor, de desejo e desespero, de vida e
morte.
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