O Encontro na Rua das Flores
— Quanto?
— Cinquenta.
— Inteiro?
— Meia hora. Sem beijo.
O homem ajusta a gola do paletó seboso. O vento minuano corta a esquina. A travesti, de minissaia de napa e peruca louca, masca um chiclete estalado.
— Quarenta. É o que tenho.
— Quarenta não paga o rímel, fofo.
— Tenho uma nota de dez no sapato. Cinquenta, então.
— Anda. Entra logo.
Sobem a escada de madeira que range. Cheiro de desinfetante barato e mofo. No quarto, uma lâmpada nua balança no teto.
— Tira a roupa — ela diz.
— Apaga a luz.
— Medo de quê? Já viu tudo na rua.
— Apaga. Gosto no escuro.
Ela estala o chiclete. Click. Escuridão. O silêncio é interrompido pelo zíper emperrado do homem.
— Você é homem mesmo? — ele sussurra.
— Sou o que você quiser que eu seja, Nelsinho.
— Como sabe meu nome?
— Todos vocês se chamam Nelsinho aqui dentro.
O homem tateia a escuridão. Encontra o cetim da pele, o calor do silicone, a dureza do músculo. Um gemido sufocado.
— Rápido — ela ordena. — Tenho outro na esquina às dez.
— Espera. Deixa eu sentir...
— Sentir o quê? É negócio, não é namoro.
Dez minutos. O som de moedas caindo no assoalho. O homem se veste às pressas, tropeçando nos próprios sapatos.
— Foi bom? — ele pergunta, a voz trêmula.
Ela acende a luz. O rímel borrado, o olhar de quem já viu o fim do mundo mil vezes.
— Foi cinquenta reais. Passa amanhã.
Ele sai sem olhar para trás. Na escada, o cheiro de mofo parece mais forte. Lá fora, Adamantina continua fria, indiferente e muda.
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