terça-feira, 17 de março de 2026

O Encontro na Rua das Flores

 O Encontro na Rua das Flores

— Quanto?

— Cinquenta.

— Inteiro?

— Meia hora. Sem beijo.


O homem ajusta a gola do paletó seboso. O vento minuano corta a esquina. A travesti, de minissaia de napa e peruca louca, masca um chiclete estalado.


— Quarenta. É o que tenho.

— Quarenta não paga o rímel, fofo.

— Tenho uma nota de dez no sapato. Cinquenta, então.

— Anda. Entra logo.


Sobem a escada de madeira que range. Cheiro de desinfetante barato e mofo. No quarto, uma lâmpada nua balança no teto.

— Tira a roupa — ela diz.

— Apaga a luz.

— Medo de quê? Já viu tudo na rua.

— Apaga. Gosto no escuro.


Ela estala o chiclete. Click. Escuridão. O silêncio é interrompido pelo zíper emperrado do homem.


— Você é homem mesmo? — ele sussurra.

— Sou o que você quiser que eu seja, Nelsinho.

— Como sabe meu nome?

— Todos vocês se chamam Nelsinho aqui dentro.

O homem tateia a escuridão. Encontra o cetim da pele, o calor do silicone, a dureza do músculo. Um gemido sufocado.


— Rápido — ela ordena. — Tenho outro na esquina às dez.

— Espera. Deixa eu sentir...

— Sentir o quê? É negócio, não é namoro.

Dez minutos. O som de moedas caindo no assoalho. O homem se veste às pressas, tropeçando nos próprios sapatos.

— Foi bom? — ele pergunta, a voz trêmula.

Ela acende a luz. O rímel borrado, o olhar de quem já viu o fim do mundo mil vezes.

— Foi cinquenta reais. Passa amanhã.

Ele sai sem olhar para trás. Na escada, o cheiro de mofo parece mais forte. Lá fora,  Adamantina continua fria, indiferente e muda.

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