domingo, 23 de julho de 2017

Esquecido



Caiu a meia-noite com uma fúria dormia
enquanto os meus olhos de sonhos se elaboram
na janela do quintal em meia a festa das vizinhas
semelhantes a gatas emboladas em estrelas.

Ai, de mim, amor, amada minha, 
ai de mim, que vou morrendo com essa lua
pela metade da minha vida tão esquecida.
Ai, de mim, amor, amada minha.

Parou o amor no meio do luar imitando
um pássaro esfomeado por beijos e gemidos.
Minhas mãos cegas de poesia estavam entre
a claridade, e a escuridão chorava lírios.

Pela porta aberta, pelo jardim aberto,
vi o nome de muitos escritos jogados
em meio ao fogo e ao metal. 
Não fazia parte de ti, amor meu,
os nossos recitais? O nosso recital?

Delirava, morto de suor, cansado de
tanto trabalho, sem poder escrever os meus versos
no meio dessa multidão sonâmbula,
no meio da tenda dos ciganos e dos poentes.

Delirando febre, delirando medo, lembrando
o vômito dos hospitais, as dores, as camas,
os comunistas assassinados na escuridão,
os capitalistas assassinando seus empregados
por dinheiro, e eu morrendo por amor
a cada dia, enquanto a espada da vida
enfiando sua navalha em meu coração
ardia minhas feridas de tartaruga marinha.

Ai, Deus meus, meus versos me confundem.
Não sei nunca sobre o que estou cantando.
Estou cantando sobre ti, Whitman, meu irmão do norte?
Sobre ti, Neruda, meu irmão chileno?
Sobre ti, Lorca, meu irmão espanhol?
Sobre o que estou cantando?
Lorena, Marcela, Janaina, Estefanie,
Ester... Quantos nomes belos para
uma filha mulher... Hoje são flores.

E meu nome arde no meu coração
enquanto madrugo versos a carvão.
Bem fundo da janela ainda posso avistar
o pequeno suspiro das sirenas que
amam os marinheiros que se vão.

Eu levanto os punhos.
A cidade está calada.
Estou calado. Não tenho mais nada.
O jardim é o vento frio que passou.

Serei serás


Serás uma caveira banguela
serei,
serás,
serei,
serás.

Com rios de caravelas
serei,
serás,
serei,
serás.

Rindo a ópera aberta
serei,
serás,
serei,
serás.

No meio do mar 
serei,
serás,
serei,
serás.

Outra ode da morte



A morte
nua
sangra
seu sangue
de lilases
          cortantes.

A morte
é tão bela
como a brisa
que
fere
de dor
      o ar.

A morte
sem face
sem luz
sem cor
sem dinheiro
repugna 
os ricos
zomba
dos seres.

Os arbustos
cantam 
  enquanto
a morte 
celebra
    seu oficio de bastão.

Um cigano galopa
     enquanto a morte
observa a lua.
  Ambas as coisas
são ilusão.

Da imortalidade da alma



Dizia um tratado antigo escrito em latim, traduzido ao idioma arcaico dos góticos, que a imortalidade é um sonho, uma inalcançável matemática de ilusões. Isso porque os mais dotados de sabedoria emergiram de seus ensinamentos em Jerusalém até os confins da Babilônia, discutindo, anotando e pensando: Até o Ungido do Senhor, de quem a descendência do messias estava confirmada, desceu as sepulturas da morte. Eles se referiam ao rei Davi, cujo antepassado mais famoso tornou-se o Cristo, por nome de Jesus, vindo da cidade de Nazaré.

Me encanta



Me encanta
seus olhos azuis de sombra
incandescidos
com a noite
sem luz e sem esperança.
Me encanta
seus olhos negros de aurora
perdidos
no horizonte
vinagre das horas.
Me encanta
seus olhos morenos de chuva
escorrendo
entre a rua serena
e a tarde apagada
do coração pequeno.

Aurora



Nunca pude entender esse nome:
aurora.
Mistura de sombra, água-ardente,
mel de abelhas femininas.
Aurora.
Que belo nome, copa,
meio silvestre, um pouco rio.
Aurora: candelabro acesso.

As ilusões


De todas as coisas
que movem minha vida fria:
a sombra, as espadas,
a colheita da luz,
as mariposas do campo,
seus beijos de orvalho,
o amor brilhante no jardim.

Só suspirei a canção
para dizer com tua voz
que as ilusões são essas:
a prata, o ouro do umbral,
a solidão amarga da sombra,
o rio com olhos de verão.