quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O mar não é aqui

O mar não é aqui em minhas feridas de trabalho.
 Nem de manhã choro marshmallows, de fome
ou sorrisos de vinagres, ou seja lá o significado
de tudo o que escrevo em meio ao caos da minha
mente.

Ai, Deus, quanta falta o Senhor me faz...

Minha imaginação trabalha com as coisas que
possuo: terra, folhas verdes caídas no chão azedo,
limões estragados na fruteira, solidão, livros empoeirados.

Meus amigos me abandonaram porque já estão mortos,
minha família me envolve com tentáculos de felicidade,
minha pátria é cheia de fumaça e névoa amarga,
minha cidade é apenas um buraco. 

Lembro do azul marinho enquanto as lágrimas
do seu rosto vão se camuflando em minhas lágrimas.
Sou eu quem está chorando, ou você está copiando
o meu suor salgado em seus olhos de marisca? 

O mar não é aqui. 
Tenho uma imensa saudade das estrelas e do luar de ontem.
Tão amarela estava a lua que me deu saudade de cantar.

Não consigo mais escrever nenhuma frase,
nenhum dicionário pode me envolver com mãos afáveis. 
Minhas palavras gaguejarei para as nuvens do poente.
Os rios sujos das estradas cobertas de serafins
ficarão encobertos na memória sangrenta do poeta.

O mar não é aqui em minhas feridas de trabalho.
Deve significar alguma coisa. 
Tudo isso deves significar = ou insignificar algo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Formosa



E Jacó amava a Raquel, e disse: Sete anos te servirei por Raquel, tua filha menor.

Vislumbrando os véus
do seu rosto tão belo de judia,
minha pequena Raquel
o candelabro aceso na mesa

é o sinal que dependia o círculo
do nosso sagrado anel.

Por isso o nosso amor é
fúria, é vento, é fogo e suor.
D'us, nosso E'terno salvador,
emerge da noite para nos unir.

Raquel, formosa fúria,
sou seu Jacó, tu és o meu mel.

Lanço em teu coração o
meu coração enluarado de cigano.
E ouço sua voz e respondo:

me amas? Te amo!

Espetáculo da vida

Esse som... Esse ar;
essa dor, esse amor...
São rimas infinitas...
embaraços cegos da
minha própria escrita.
Nada restou, só as
palavras ficaram, 
como sempre
entre mim e o véu do
imemoriável desejo de
ser o que não sou.
Meu Deus, que faço
nesse absurdo,
nesse teatro?
Que é essa poça?
Essa cidade, Adamantina,
que é esse buraco?
Que são essas coisas todas?
Socorro.
Grito e gritam, 
ninguém se ouve,
ninguém me ouve.
A solidão e a morte
são duas coisas parecidas.
Devem ser irmãs. Jovens,
robustas. A vida deve ser
grisalha, triste e melancólica.
A esperança está na porta.
Não ouso abri-la. 
Não ouso fecha-la.
Meu nome será esquecido.
Junto ao teu. Adeus.
Começou de novo a peça.
A mesma peça de antes.
Que acontecerá no espetáculo?

Romance das Pinturas Destruídas



Meia-noite sem agulhas,
pastos incendiados de tintas
em meio a brancura de flores,
noturnos peixes voadores
incendeiam o ar de escuridão.
Mãos serenas tecem o quadro
em meio a constante solidão.
Vibrações de movimentos oculares,
tochas, cimentos, raízes, pão.

O pequeno olho do cigano
transcorre o universo pálido,
enquanto o céu cinzento se move
moldurando o esquadro.

Ai, tristeza, tristeza,
gritam as ciganas no quadro.
Enquanto o fogo se alastra
e as vozes são abafadas.

Não há ruído de morte
antes do galope do cavalo.
Enquanto percorre o rio da vida
o cigano geme por seu quadro.

Ai, morte, morte,
morte cinzenta de vozes.
Ai, dureza, dureza,
dureza da vida inteira.

Galopa o destino das tintas
envoltas no papel estrangulado.
As mechas dos cabelos são
lembranças despertadas
das raízes sem fúria e sem pátria.

Ai, morte, morte,
que sonhas com outra vida.
Ai, dureza, dureza,
dureza que arde o mar.

O coração de vidro
envolto em tanto sofrimento
virou uma ameixa estragada,
esquecida na fruteira.

O ar da noite suspira
enquanto o cigano recolhe
as cinzas que deixaram.
Jogaram trinta moedas
para oferecer seu 
Cristo amortalhado.
O sol ofereceu sua luz suave
enquanto queimava 


o resto dos quadros.

ondas


jarro sem água


jarro com água