domingo, 23 de julho de 2017

Peso existencial



Há um peso em existir muito grande.
Há um peso...
Há um peso em existir muito grande..

Canção da musa escura





Da África veio os seus ancestrais,
   pintando de ébano o seu corpo moreno,
 dando voltas pelo céu
com pequenas estrelas brilhando
seus olhos, dentes, cabelos,
as cores de um continente inteiro.

Amada, africana de herança,
pulsando a dor da lembrança
(a escravidão),
a gota, o sereno.
A cada lembrança uma lágrima,
por dentro pulsando a alegria.

Por isso nomeei-te musa
da escuridão, da luz profunda.
Por isso em seus lábios perfeitos,
meus beijos eram mais vivos
que as raízes profundas da
rosa.

A negra



A negra,
a negra,
escura,
escura como a lua.
Tão clara,
tão viva,
tão pura.
A negra
é o significado
do meu coração.
Machucado,
machucada.
A negra,
a negra,
a negra escura,
escura como o por-do-sol,
escura como a lua.

A voz da
negra,
voz tão pura,
me encontra
no dia,
no algodão,
no trabalho
de cada-dia.
Meu Deus,
o Senhor criou
na negra
a perfeição.

A escuridão,
a beleza certa,
de uma mulher
escura,
tão pura,
tão nua,
tão viva,
tão escura
como a sombra.

Porque se
digo que
sua cor
é a taça ébano
do meu amor,
você
ri,
sorri,
brinca,
diz que não te quero,
diz que não te amo.

Mesmo assim,
te amo e te amo,
negrinha, negrinha,
fulô do meu jardim,

fulô do meu coração,
fulô do meu amor,
fulô das mais belas:
isso sim é amor!

foto: ilustrativa


Sem importância



Se passares por um pessegueiro
Não dê importância
Siga morto seu caminho
 Como toda a humanidade faz.

Grito




Você veio da África?
Vim, vim.
Veio sorrindo?
Chorando carmim.

Você veio do sul?
Vim, vim.
Veio sorrindo?
Chorando flores.

Você veio do norte?
Vim, vim.
Veio sorrindo?
Cantando lamentos.

Saudades do vento.
Saudades..

Canção da princesa negra



com tema de jorge de lima

Não era um dia qualquer,
nem havia nuvens no mar.
A noite simbólica ardia
suas velas de ancoras,
suas guerras noturnas.
A princesa de cor de ébano,
negra como a fúria negra,
entrelaçada de marfim e ouro,
a coroa de mel e metal.
Um grito dentro da noite,
fez vendavais de lilases,
o verde das árvores gemeram
coroando de ar as espadas.

Uma voz estranha de pátrias outras
destilou o outono nas sobrancelhas.
Depois pousou mãos amargas
em todas as sílabas escritas.

Levai os cativos,
levai os escravos.
Levai para o mar,
para o navio do mercado.
Carregando na mão
o chicote e a tortura.
A praia deserta, o sol 
moreno e quente,
não viu mais os rostos
dos afundados no oceano dormente.

A princesa suplicava
com sua voz de mariposa.
Ninguém a escutava.
Só as rochas e os grilhões.

No meio do caminho
avistou o barco inglês.
Jogai para fora os negros,
porque a escravidão terminou.
Mesmo assim, a voz serena,
não escutou o espelho quebrado.
Alguns foram mortos, 
nas águas afundados.

O navio chegou a terra
sempre primeira com lemas de 
outra nação.
Subiu a princesa negra,
lavada de dor e solidão.

Seus gritos de marfim
serenos não foram escutados, não.
Sua voz doce e pura
não sensibilizou os números.

Por fim o rastro de sangue
enevoado de areia
foi ficando quente, triste,
bem no meio da estrada.
A princesa sentou-se diante
de um barbado bicho-preguiça.

O amor abusou da sua coroa
apaixonando suas redes de tetas.
No mel que escorreu do céu
apaixonou o rei da outra terra.

A dor se misturou a harpa
nos gritos dos lutadores de liberdade.
E então, segurando o livro sagrado,
fugiram com sete estrelas ao refúgio.
Nunca mais fora encontrados.

E a princesa ficou sem nome,
esquecida do outro lado.

Esquecido



Caiu a meia-noite com uma fúria dormia
enquanto os meus olhos de sonhos se elaboram
na janela do quintal em meia a festa das vizinhas
semelhantes a gatas emboladas em estrelas.

Ai, de mim, amor, amada minha, 
ai de mim, que vou morrendo com essa lua
pela metade da minha vida tão esquecida.
Ai, de mim, amor, amada minha.

Parou o amor no meio do luar imitando
um pássaro esfomeado por beijos e gemidos.
Minhas mãos cegas de poesia estavam entre
a claridade, e a escuridão chorava lírios.

Pela porta aberta, pelo jardim aberto,
vi o nome de muitos escritos jogados
em meio ao fogo e ao metal. 
Não fazia parte de ti, amor meu,
os nossos recitais? O nosso recital?

Delirava, morto de suor, cansado de
tanto trabalho, sem poder escrever os meus versos
no meio dessa multidão sonâmbula,
no meio da tenda dos ciganos e dos poentes.

Delirando febre, delirando medo, lembrando
o vômito dos hospitais, as dores, as camas,
os comunistas assassinados na escuridão,
os capitalistas assassinando seus empregados
por dinheiro, e eu morrendo por amor
a cada dia, enquanto a espada da vida
enfiando sua navalha em meu coração
ardia minhas feridas de tartaruga marinha.

Ai, Deus meus, meus versos me confundem.
Não sei nunca sobre o que estou cantando.
Estou cantando sobre ti, Whitman, meu irmão do norte?
Sobre ti, Neruda, meu irmão chileno?
Sobre ti, Lorca, meu irmão espanhol?
Sobre o que estou cantando?
Lorena, Marcela, Janaina, Estefanie,
Ester... Quantos nomes belos para
uma filha mulher... Hoje são flores.

E meu nome arde no meu coração
enquanto madrugo versos a carvão.
Bem fundo da janela ainda posso avistar
o pequeno suspiro das sirenas que
amam os marinheiros que se vão.

Eu levanto os punhos.
A cidade está calada.
Estou calado. Não tenho mais nada.
O jardim é o vento frio que passou.