O sol de meio-dia não tinha sombra; era uma faca cega batendo na moleira. Bento estava acocorado, riscando o chão duro com um graveto de jurema. Luzia saiu da casa com o caneco vazio na mão.
Luzia: — O poço deu o que tinha de dar, Bento. O fundo é só lama e cheiro de bicho morto.
Bento: — Eu vi. O gado também já sabe. Tão lá, encostado na cerca, esperando a morte sem nem ter força pra berrar.
Luzia: — A gente vai esperar também? Até o juízo final ou até o couro secar no osso?
Bento: — Esperar é o que o sertanejo faz melhor, Luzia. A gente espera a chuva, espera a safra, espera a sorte. O problema é que a sorte não tem pé pra caminhar nesse esturricado.
Luzia: — Pois eu já não espero. Me dói os olhos ver esse azul do céu, tão limpo que chega a ser desaforo. Nem uma nuvenzinha pra remediar. Parece que Deus esqueceu o registro aberto lá no alto, mas só pro sol sair.
Bento: — Não fala assim, mulher. Deus não esquece. Ele só bota a prova.
Luzia: — Pois a prova tá dada. A horta morreu, o juazeiro tá cinza e a minha esperança tá igual a esse chão: toda rachada. Se a gente não fechar a casa e pegar o rumo da estrada, o próximo enterro é o nosso. E não vai ter nem flor de papel pra botar em cima.
Bento: (parando de riscar o chão e olhando para o horizonte trêmulo de calor) — Ir pra onde? Pro Sul? Pra ser bicho de cidade? Aqui, pelo menos, a gente conhece a cara da fome. Lá, ela se esconde atrás de parede de tijolo.
Luzia: — Aqui a fome não se esconde, Bento. Ela senta na mesa com a gente e dorme na rede. Eu prefiro o desconhecido do que essa certeza de virar pó antes da hora.
Bento: (levantando-se com dificuldade, os ossos estalando) — Pois apronte o saco. Se o céu não quer dar água, a gente vai buscar o destino com os pés. Mas não olhe pra trás quando fechar o trinco. Quem olha pra trás na seca vira estátua de sal, e de sal o mundo já tá cheio.
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