quarta-feira, 26 de julho de 2017

Canção do amor duvidoso


Tu me amas como vidro,
me amas, amas, como a areia.
Tu me amas repartido a vinho,
tu me amas, amas, amas como o vento.
Tu amas ele, tu me amas, tu nos amas
como a sombra que estampa
a noite, e não amas a ninguém,
e sentes que amas a solidão.
Tu amas e amas o coração alheio,
amas as nádegas femininas,
amas os espelhos, mais não
amas a nada, amas a tudo.
Amas e não amas o coração
dilacerado e molhado pela chuva.
Nem o ar, nem a canção, nem
a mão inconsútil estendida.
Tu me amas como vidro...

Balsa amorosa


Há um rio noturno
bem fundo
nos beijos do
orvalho.
As águas são
lentas dentro
dos seios de
limão.
O ar da noite
absorve sua paixão.
Na praça o outono
descansa nos olhos
do carvalho.
O amor passou.
E chorou o barqueiro
apaixonado.

Onde


Que estás
fazendo aí,
parada?
sozinha?
Vendo as
estrelas?
Pensando
na vida?

terça-feira, 25 de julho de 2017

Ensinamento do deserto



Rios de pedras,
amores em caracóis,
um sol outonal,
a mensagem da
miragem desértica.

Todos os símbolos
no algorismo do labirinto,
a fria mensagem da
neve, a imóvel 
ilusão indefinida.

Na mesa, na garrafa,
o sol, a lua, a noite
no quadro, a pintura
sem tinta,

as estrelas a mensagem
a pureza a escuridão
as coisas a luneta:
só e nada mais.

Arpão.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Valsa da mariposa negra

A mariposa, a mariposinha negra,
a pequena mariposa negra
no jardim sem cabeleira,
chorando ondas em perfumes,
beijando o orvalho das flores.
A mariposa, a mariposinha negra,
olhando a negra enquanto
todos dormem o sono da sonolencia,
a mariposinha, a pequeníssima mariposa,
brilhando como o punhal dos seus olhos.
A mariposa, a bela mariposa,
negra com as asas rosa em forma
de carta, xadrez enigmático, casa.
A mariposa, a mariposinha negra,
encaracolada como a lua sem pregos,
escura como a noite suave,
preta como o ébano africano.
A mariposinha pousando
no meu coração sem bom-dias.
A pequena, a negrinha mariposa,
no meio da cortina, beijando o
gato que morde as cortinas.