quarta-feira, 1 de junho de 2016

Carta geográfica

Mar,
aqui onde a terra me enterra,
deixa-me descansar em teu olhar.
Cobre-me de sal, de onda.
Cobre-me de algas e de conchas.
Deixa-me ser, tu e eu, mar, companheiro,
como um peregrino marinho, como uma
baleira curiosa a te cruzar sem rumo.
Mar,
deixa-me descansar minha cabeça
em tuas vagas. Deixa-me por minhas
asas de pelicano adormecido em tuas
pedras imensas. Mar, cobre-me com
o frio do teu corpo mole. Enche-me de
barbatanas, de guelras, de fedor marinho.
Mar,
vou colher teu sal e vomita-lo em forma de
poesia amarga, de protesto contra a noite.
Mar,
vende-me um oceano em forma de suco

de pêssego.
Mar,
repete o seu som de violino em meus cabelos
negros.
Deixa-me ficar diante da tua praia, mar,
e descansar com o meu corpo de pó e de metal
em tuas entranhas aquáticas e cinzentas.
Mar,
que tu não existas mais
e que nem eu mais exista

Começo


E começo aqui
como um martelo.
E desprego tudo o que eu disse.
Que ninguém me leia, que ninguém me entenda.
Não quero ser visto por nenhuma estrela.
E começo aqui.
E o mar se finda nesse começo.
E atravesso os campos verdes
sozinho como o capim, alegre como uma raposa.
E começo aqui
como o meio-dia.
Começo sem vento, sem tristeza.
Ali está suas mãos me acariciando o rosto.
Não há nada além do que jardins sem flores
nos acompanhando no escuro.
Infinito, começo por aqui.
Agora, se não querem me entender,
que não entendam.
Meu fim é o meu próprio começo

sofrimento


Quando falo
falo das coisas
que giram ao meu redor.
Quando falo
não escuto minha voz.
Voz metálica de pelicano
apaixonado.
Quando falo
o silêncio ecoa
por minha gargante.
Quando falo
todas palavras
que saltam como estrelas
compõem o espaço do meu poema.
Quando falo
o mar se agita
tuas mãos me tocam
a manhã surge entre
névoas tristes e relâmpagos sonolentos.
Quando falo
atravesso uma pequena
casa feita de sonhos.
Quando falo
tudo muda.
Quando falo
uma pequena lágrima
bate palma se espalhando
pelo meu rosto metálico
de pelicano...

junto ao mar

...
Junto ao mar
sonho com os
teus beijos.
Junto ao mar.
Porque sonhas,
dormes, repousas
mariposa azul
sorrindo no
oceano com
tristeza e alegria?
Junto ao mar
sonho com as
ondas incontidas.
Junto ao mar
sonho em ser
sendo no amor
a minha própria
vida.

Na luz do mar

Apenas os teus olhos de sombra
se findam ao horizonte errante do mar.
Grito o teu nome aos mares
mais nem um porto esconde
as sílabas do amor que carregas.
A noite gita em torno de sua boca de alga,
e vejo pousar em teus cabelos
pequenas gaivotas que buscam
descansar do abraço do vento.
Eu também busco descansar
em teus braços marinhos.
Eu também busco dormir
sossegado na cor sombria
dos teus olhos asiáticos
que tanto vejo, que tanto amo.

domingo, 29 de maio de 2016

Marinha


...
Marinha companheira
de luz, de algas, de palavras.
Envolta em uma luz
suave de onda que se vai.
Chama o meu nome
por cada chave do litoral.
Não tenho presente nem
tenho passado: ando pelo
mar nu e descalço.
Acompanho o teu sorriso,
marinha companheira,
como uma estrela no
espaço.
Marinha como o dia,
marinha vida que se envolve
em teu seio cor-de mar.
Envolto em teus olhos âmbar
juro-te o meu amor, juro-te o meu amar.