quarta-feira, 23 de setembro de 2026

No sul

 No sul

os ventos 

calmos

com

a água dos

nossos beijos

de aurora morta.

Galope Cigano

                         sobre o carvão

                                do teu corpo nu


            fui feliz e descobri

a eternidade do mar

            em teus orgasmos


de ateniense

                    africano.

A mariposa voa

 A mariposa voa

mel         de beijos

                        céu cinzento.

As asas da mariposa

 As asas     da mariposa


negra

sobre     minha boca

    se abre

e voa


levando montes

nuvens     de algodão

e silhuetas de


amor que só

a noite     pode transpor

por águas puras


ao galopares     noturnos.

O Debate

 Sua boca
                macia

mel     desesperado
das
            estrelas

caídas
com o amanhecer

                do dia.

O Picasso da Praça - conto

 

Tomas entrou no museu com a chave de fenda pronta para cravar o furto no Picasso. Olhou para a cara torta daquela mulher pintada e desistiu: dava vertigem.

Saiu de mãos abertas, respirando o vento frio de São Paulo, cidade que estava deserta. Na esquina da praça, esbarrou com a rapariga encostada no poste. Batom borrado, olho caído, nariz fora do eixo. O mesmo cubismo de bordel.

Sorriu, puxando-a pelo braço:

— Hoje o original sai mais barato.

O Picassinho da Madrugada

 


Cinzenta cidade, garoa fina que cola o cabelo ralo no crânio de Juvenal. De casaco mofado e luvas de lã furadas, ele entra no museu com a alma empacada.

O plano era infalível: desparafusar a moldura do Picasso pequeno, enfiar debaixo do gabardine e sumir na neblina. Mas diante da tela, o monstro de olhos tortos e bocas no lugar errado parece encará-lo com desprezo. O cubismo mexe com o estômago de Juvenal.

— Que tipo de mulher é essa? Nem o rabo tem simetria — resmunga, suando frio.

O segurança tosse no corredor. O pânico sobe pela garganta, azedo como café requentado. Juvenal desiste. Larga a chave de fenda no bolso, dá meia-volta e sai apressado, com o coração batendo na orelha.

Na rua estreia a cerração corta a vista. Sem Picasso, sem glória, sobra o vazio de sempre. Caminha até a praça, passos arrastados no paralelepípedo molhado. É ali que ela está, encostada no poste, baforando um cigarro barato, o batom borrado de carmim barato e a saia curta demais para o vento sul.

— E aí, meu velho? Quer subir? — pergunta ela, a voz grossa de fumo.

Juvenal olha para a cara da moça. Os olhos meio desalinhados, o nariz meio torto, um perfil meio cubista na luz amarela do lampião. Sorri sem dentes.

— Quero. O original é sempre melhor que a cópia.