Cinzenta cidade, garoa fina que cola o cabelo ralo
no crânio de Juvenal. De casaco mofado e luvas de lã furadas, ele entra no
museu com a alma empacada.
O plano
era infalível: desparafusar a moldura do Picasso pequeno, enfiar debaixo do
gabardine e sumir na neblina. Mas diante da tela, o monstro de olhos tortos e
bocas no lugar errado parece encará-lo com desprezo. O cubismo mexe com o
estômago de Juvenal.
— Que
tipo de mulher é essa? Nem o rabo tem simetria — resmunga, suando frio.
O segurança tosse no corredor. O pânico sobe pela
garganta, azedo como café requentado. Juvenal desiste. Larga a chave de fenda
no bolso, dá meia-volta e sai apressado, com o coração batendo na orelha.
Na rua estreia
a cerração corta a vista. Sem Picasso, sem glória, sobra o vazio de sempre.
Caminha até a praça, passos arrastados no paralelepípedo molhado. É ali que ela
está, encostada no poste, baforando um cigarro barato, o batom borrado de
carmim barato e a saia curta demais para o vento sul.
— E aí,
meu velho? Quer subir? — pergunta ela, a voz grossa de fumo.
Juvenal
olha para a cara da moça. Os olhos meio desalinhados, o nariz meio torto, um
perfil meio cubista na luz amarela do lampião. Sorri sem dentes.
— Quero.
O original é sempre melhor que a cópia.
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