quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O Picassinho da Madrugada

 


Cinzenta cidade, garoa fina que cola o cabelo ralo no crânio de Juvenal. De casaco mofado e luvas de lã furadas, ele entra no museu com a alma empacada.

O plano era infalível: desparafusar a moldura do Picasso pequeno, enfiar debaixo do gabardine e sumir na neblina. Mas diante da tela, o monstro de olhos tortos e bocas no lugar errado parece encará-lo com desprezo. O cubismo mexe com o estômago de Juvenal.

— Que tipo de mulher é essa? Nem o rabo tem simetria — resmunga, suando frio.

O segurança tosse no corredor. O pânico sobe pela garganta, azedo como café requentado. Juvenal desiste. Larga a chave de fenda no bolso, dá meia-volta e sai apressado, com o coração batendo na orelha.

Na rua estreia a cerração corta a vista. Sem Picasso, sem glória, sobra o vazio de sempre. Caminha até a praça, passos arrastados no paralelepípedo molhado. É ali que ela está, encostada no poste, baforando um cigarro barato, o batom borrado de carmim barato e a saia curta demais para o vento sul.

— E aí, meu velho? Quer subir? — pergunta ela, a voz grossa de fumo.

Juvenal olha para a cara da moça. Os olhos meio desalinhados, o nariz meio torto, um perfil meio cubista na luz amarela do lampião. Sorri sem dentes.

— Quero. O original é sempre melhor que a cópia.

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