São Paulo, aquela fornada de asfalto cuspindo bafo de escapamento, hora do rush empesteada de gente com pressa de chegar a lugar nenhum. Eu estava ali, encostado num botequim da Augusta, tentando decifrar o mistério de um chopp que custava caro demais para vir sem colarinho, quando a vi dobrar a esquina como se a rua inteira fosse uma passarela particular da Cia. de Fiação e Tecidos.
Era uma nega alta, de pernas infindas que pareciam não terminar nunca, equilibradas num scarpin vermelho-sangue que estalava no cimento que era uma beleza. Cabelo cacheado volumoso caindo pelos ombros, um vestido verde-garrafa justo que desafiava a lei da gravidade e do bom senso, e um olhar que já vinha com a fatura pronta para cobrança. Bateu os olhos em mim, deu aquele sorriso de canto de boca — o tipo de sorriso que faz o sujeito esquecer o saldo devedor do cheque especial e a conta de luz atrasada — e parou bem na minha frente.
— E aí, garoto? Vai ficar com essa cara de paisagem secando a calçada ou vai me pagar um trago? — soltou ela, com uma voz rouca que parecia ter fumado três maços de Derby vermelho e tomado duas doses de cachaça purinha.
O nome dela era Verônica. Ou melhor, a Verônica, com artigo definido, do jeito que impõe respeito.
— Pago o trago e o que mais vier no pacote, se a patroa aceitar — mandei essa, tentando parecer mais entendedor da vida do que realmente sou.
O chopp virou duas rodadas, o papo engatou na base do esculacho mútuo e da sacanagem franca, sem rodeios. Em menos de vinte minutos, já estábamos dividindo um táxi cheirando a essência barata de baunilha, rumo ao cafofo dela num sobradinho antigo no Bixiga. O lugar parecia um cenário de filme B dos anos setenta: paredes pintadas de um azul-piscina duvidoso, pôsteres desbotados, um som chiando um samba-canção melancólico e uma cama de casal que rangia só de olhar torto para ela.
— Senta aí e não repara na bagunça, meu rei. Aqui o luxo é livre e o resto é conversa mole — disse ela já arrancando os brincos pesados e jogando a bolsa em cima da cômoda.
O que se seguiu não foi bem um romance de livraria, e graças a Deus por isso. Foi um turbilhão de pele, suor, risadas abafadas e uma voracidade que parecia querer descontar todas as chatices daquela cidade cinzenta em cima do colchão. Verônica tinha uma energia magnética, um domínio absoluto do próprio corpo e do espaço ao redor. Cada toque era um manifesto, cada gemido parecia uma provocação à moralidade vigente dos botequins da praça Roosevelt. Era pele preta reluzindo sob a luz amarela da lâmpada fraca, lençol embolado, fumaça de cigarro contrabandeado e uma cumplicidade animalesca que a gente só acha quando desliga o cérebro e liga o instinto.
A madrugada avançou entre goles de rum barato direto da garrafa e conversas fiadas sobre a mediocridade do mundo corporativo paulistano, intercaladas por recomeços na cama que pareciam nunca perder o fôlego.
Quando o sol começou a empalidecer o céu e a descarregar aquela claridade chata de segunda-feira pelas frestas da janela, eu estava estirado no colchão, com os músculos doridos de tanto rir e amar, sentindo o cheiro de perfume doce misturado com tabaco impregnado na camisa. Verônica estava sentada na ponta da cama, acendendo o primeiro cigarro do dia, tragando com aquela elegância displicente de quem já viu de tudo e não deve nada a ninguém.
— Vai ficar aí fazendo pose de anjo decaído ou vai vazar antes que o padeiro abra? — perguntou ela, cuspindo a fumaça para o teto com um meio sorriso irresistível.
Me levantei, catei os sapatos debaixo da cadeira, vesti a camisa amassada e dei um beijo na bochecha dela, que cheirava a jasmim e pólvora. Saí pra rua fresquinha da manhã com a sola dos pés latejando, a cabeça zonza, mas com a certeza absoluta de que aquela noite tinha valido por dez anos de tédio burguês.
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