A chapa estava pegando fogo, o óleo fedia a ranço industrial e o ar-condicionado daquela espelunca de fast-food tinha morrido em 2018. Caio, dezessete anos e meio, espátula na mão direita, avental engordurado colado no peito, sentia a própria alma escorrer junto com a gordura vegetal hidrogenada. A vida dele era um looping de cheeseburger, batata murcha e cliente impaciente cuspindo reclamação no balcão.
Foi quando a porta automática abriu e o inferno particular de Caio deu uma trégua cósmica.
Ela entrou.
Não era apenas uma cliente. Era um acontecimento meteorológico. Alta, soberana, de pernas infindas cobertas por uma calça de vinil que estalava a cada passo, uma bota tratorada e um casaco de pel sintética vermelha que fazia o piso de cerâmica encardida parecer um tapete vermelho de Cannes. A pele retinta brilhava sob a luz fluorescente fria, a trança box braid caía pesada pelas costas e o carão dela era uma mistura de tédio cosmopolita com quem veio cobrar o imposto de renda do gerente.
Caio travou. A espátula quase derreteu na chapa.
Ela parou diante do caixa onde a coleguinha de farda, uma adolescente com olheiras até o joelho, mastigava chiclete.
— Quero um combo duplo. Sem picles. E um milk-shake de ovomaltine que não venha ralo, porque se vier eu jogo na tua cara. Captei, gatinha? — a voz dela era um contralto aveludado, cortante e magnético que fez os pelos do braço de Caio levantarem em festinha particular.
A caixa só piscou, aterrorizada e fascinada.
Quando o pedido ficou pronto, coube a Caio a sagrada missão de levar a bandeja até a mesa do fundo, a única longe da luz estourada. Ele foi marchando como quem vai pro fuzilamento, o coração batendo no ritmo de um funk desgovernado.
Aproximou-se da mesa com a cabeça baixa.
— Seu... seu pedido, moça.
Ela cruzou as pernas, ajeitou o casaco e ergueu o queixo. Os olhos dela, delineados com um gatinho impecável, cravaram nos de Caio. Um sorriso lento, irônico e devastador abriu-se nos lábios carnudos dela.
— Moça não. Brenda. E você tem cara de quem chora escondido no estoque ouvindo MPB triste, garoto. Como é teu nome?
— C... Caio.
— Senta aí, Caio. A chapa não vai esfriar se você respirar dois segundos. O capitalismo pode esperar.
Caio olhou pros lados. O gerente estava no escritório contando moedas. Sem pensar duas vezes, largou a bandeja, puxou a cadeira de plástico e sentou-se diante daquela força da natureza.
— Você não é daqui — soltou Caio, com a audácia dos desesperados.
— Eu sou de onde eu quiser, meu amor. Hoje tô de passagem por esse lodaçal de fritura. E você? Fica o dia todo aí fedendo a gordura por um salário mínimo que não paga nem o teu passe de ônibus?
— É o que tem pra hoje... — murmurou ele, enfeitiçado, olhando de soslaio para o colo dela, para a imponência daquela mulher que parecia esculpida a fogo e neon.
Brenda riu, um som grave e gostoso que abafou o barulho das fritadeiras. Ela inclinou-se sobre a mesa, o perfume doce e caro invadindo as narinas de Caio e bagunçando qualquer resquício de sanidade que restava nele.
— Sabe qual é o teu problema, Caio? Você tem medo. Medo de morder a vida, medo de chutar o balde, medo de ser de verdade. Fica aí parecendo um autômato de avental. A vida é curta demais pra passar o dia inteiro raspando restos de carne artificial, porra.
As palavras bateram em Caio como um banho de água fria misturado com adrenalina pura. Ele sentiu o rosto esquentar, não de vergonha, mas de um tesão louco, misturado de liberdade e vertigem.
Brenda esticou a mão unhada de gel, tocou levemente o queixo dele com a ponta dos dedos longos e cravou os olhos nos dele.
— Termina teu turno às dez, né? Passa na esquina do inferninho ali na 13 de Maio. Quero ver se esse teu sangue de garoto de fast-food ainda corre ou se já virou puro óleo congelado.
Ela se levantou com uma graça felina, pegou o copo de milk-shake, deu uma última tragada no canudo e caminhou em direção à saída, rebolando com uma insolência que parecia zombar da gravidade e de toda a mediocridade do mundo.
A porta automática fechou. O cheiro de gordura voltou a reinar. Mas Caio já não era o mesmo. Olhou para a espátula, depois para a porta, e percebeu que o turno da noite nunca mais seria igual.
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