segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Mapa da Contenção

Não, coração, não revele ao interior as coordenadas exatas deste naufrágio. Mantenha a postura das montanhas de granito, aquelas que vimos no Atlas, na página quarenta, onde o azul do oceano é apenas uma escolha de tinta, e não um abismo de sal e de perdas.É preciso um certo rigor, uma técnica de arquivista, para dispor as xícaras de chá sobre a mesa de mogno sem que o tremor das mãos denuncie a falha geológica que corre, invisível, sob o tapete da sala. Olhe para as gravuras: os pescadores são minúsculos, quase pontos de nanquim contra o cinza do estuário; eles não gritam, eles apenas puxam as redes. Há uma dignidade austera no que é puramente visual.Estude a topografia do seu próprio silêncio. Onde termina a varanda e começa o vazio? As árvores de ferro no jardim não pedem desculpas, nem os pássaros, que repetem suas notas mecânicas semelhantes ao som de uma máquina de escrever antiga. Tudo é uma questão de escala, de perspectiva, de saber exatamente onde colocar a vírgula para que o soluço não quebre a estrutura da frase. Se o interior insiste em transbordar como um rio, construa uma represa de fatos e de nomes próprios. Lembre-se do brilho da faca, do peso do cinzeiro, da temperatura exata do ar em Nova Amsterdã. Não, coração, não revele o que está submerso; o mundo prefere a superfície lisa dos mapas, onde as fronteiras são nítidas e a dor, se existir, é apenas um detalhe na


 legenda.

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