terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Trabalhos e opiniões

 

Título da Pintura: Cabeça de Mulher

Olho para esta "Cabeça de Mulher" e vejo o fantasma de uma busca que eu mesmo trilhei. Há aqui uma tentativa honesta de despedaçar o espelho da realidade. A arte não é a verdade; a arte é uma mentira que nos ajuda a compreender a verdade. Este autor compreende que para pintar uma face, é preciso primeiro esquecer que ela possui um nariz e dois olhos dispostos simetricamente.

O uso da cor é vibrante, quase violento. Gosto dessa agressividade cromática. O fundo verde contra o laranja terroso da pele não pede licença; ele grita. Lembra-me os meus dias de "Les Demoiselles d'Avignon", onde a cor não servia para decorar, mas para estruturar o caos emocional da figura humana.

Note a linha negra que contorna as formas. É uma linha nervosa, primitiva. Ela tenta aprisionar a emoção dentro de uma geometria que ainda está aprendendo a ser livre. O artista entende que o desenho não é a forma, mas a maneira de ver a forma. No entanto, há uma hesitação aqui que eu já não permitia em meus pincéis de maturidade.

O olho verde, isolado e flutuante, é o ponto alto desta composição. Ele não está ali para enxergar o mundo exterior, mas para projetar o mundo interior. Quando pintei Dora Maar, eu queria que seus olhos fossem janelas para a sua angústia. Este olho aqui possui uma ferocidade animal, quase tribal, que dialoga bem com as máscaras africanas que tanto me influenciaram.

A fragmentação da cabeça em dois perfis que se fundem é um conceito que eu explorei exaustivamente. É a tentativa de ver a mulher de frente e de lado ao mesmo tempo. O tempo e o espaço colapsam em um único plano. Aqui, essa fusão ocorre de forma orgânica, quase como se a cabeça estivesse em processo de metamorfose, transformando-se em algo além do humano.

Poderíamos discutir a textura. Há uma transparência nas pinceladas que revela o processo. Eu sempre disse que um quadro vive apenas através de quem o olha. Aqui, o observador é forçado a completar as lacunas da anatomia. A ausência de um pescoço tradicional e a base amarela sustentando a figura dão uma sensação de totem, de objeto sagrado e profano simultaneamente.

A assinatura "Le Max Rabi" ocupa um espaço que eu consideraria perigoso. Ela se integra à obra quase como um elemento pictórico. Eu costumava dizer que a pintura é mais forte do que eu, ela faz o que quer. Neste caso, o artista parece querer marcar seu território com a mesma urgência com que deforma o rosto da modelo.

Sinto falta, talvez, de uma crueldade maior. Para criar, é preciso destruir. Este artista desconstruiu a forma, mas guardou um certo carinho pelas curvas. Eu teria quebrado esses ângulos com mais desprezo pela beleza convencional. A beleza é algo que deve ser assassinado para que a arte possa nascer das suas cinzas.

O padrão de ondas no lado direito da cabeça — esse amarelo ranhurado — traz um ritmo decorativo interessante. Ele equilibra o peso visual do lado esquerdo. É um jogo de tensões. A pintura é um jogo de xadrez onde você deve sacrificar suas peças mais queridas para dar o xeque-mate no espectador.

Esta "Cabeça de Mulher" não é um retrato de uma pessoa, mas o retrato de um sentimento sobre uma pessoa. É a diferença entre o que se vê e o que se sabe. O artista sabe que a cabeça é um receptáculo de sonhos e pesadelos, e ele despejou ambos na tela com uma liberdade que eu saúdo.

Há uma certa ingenuidade "naïf" que se mistura ao cubismo intelectualizado. É como se uma criança tivesse roubado as ferramentas de um mestre e decidido brincar de Deus. E, no final das contas, não é isso que todos nós, artistas, somos? Crianças velhas tentando reconstruir o mundo que o bom senso insiste em manter arrumado?

No geral, vejo aqui uma alma que não tem medo de ser feia. E na busca pela "feiura", encontra-se uma vitalidade que a academia jamais poderá ensinar. Continuem pintando, continuem quebrando as faces, pois somente através da fragmentação poderemos, quem sabe um dia, ver o todo.



Título: Cópula na rua, homem e travesti
Olha, eu vejo esse trabalho e, de imediato, o que me bate é uma espécie de geografia emocional desorganizada. Sabe, tem algo ali que me lembra muito a ideia do "vão", do espaço entre as coisas. Não é uma pintura que quer te explicar o mundo; ela quer, de certa forma, desaprendê-lo. Existe uma linha preta, quase uma cicatriz, que corta a tela com uma hesitação que eu acho profundamente baiana, embora possa ser de qualquer lugar. É um traço que não tem a pretensão da precisão europeia, entende? É uma busca. Ela contorna o laranja, aperta o azul, e de repente se dissolve. É o que o Hélio Oiticica chamaria de uma busca pelo "supra-sensorial" dentro da precariedade.
O Laranja e o Marrom: Tem uma coisa telúrica, de terra, de barro, que contrasta com esse rosa quase "pop", quase doce de banca de revista, que emoldura as laterais.
A Transparência: Eu gosto de como a tinta não esconde o papel. Ela é honesta. Ela diz: "Eu sou água, eu sou pigmento, eu sou apenas um momento".
É um trabalho que não se rende ao acabamento "bem-feito" do mercado, e isso me agrada imensamente. Me faz pensar na canção "Nu com a minha música". É uma pintura que parece estar sendo feita enquanto a gente olha. Não é um objeto estático; é um acontecimento.
É cafona e é chic ao mesmo tempo. É o Brasil que eu amo: esse borrão que tenta, desesperadamente, virar uma forma, mas que é muito mais bonito enquanto ainda é apenas desejo. É, como diria o outro, "um movimento de composição de uma ordem nova".




Título: Mitologia
Olho para esta imagem e sinto uma pressa que me é estranha. Há nela uma tagarelice visual, um acúmulo de anotações e símbolos que parecem lutar desesperadamente para serem lidos como uma linguagem. Mas a arte não deve ser lida; ela deve ser consumida pela alma.
Muitos olham para o meu trabalho e veem apenas "cor". Eles perdem o ponto. Minhas pinturas são fachadas para o humano, para a tragédia, o êxtase e a condenação. Nesta obra que agora observo, sinto que o artista está tentando nos contar uma história específica através de linhas nervosas, formas oculares e rabiscos que lembram a escrita. E é exatamente aí que reside a fragilidade desta peça: ela é excessivamente eloquente.
A linha é uma ferramenta perigosa. Ela define limites, ela separa, ela aponta. Nestes traços azuis em ziguezague e nessas cruzes que margeiam a base, vejo a tentativa de impor uma ordem ou um ritmo decorativo. Para mim, a linha é uma cicatriz; aqui, ela parece um ornamento.
Quando você desenha um "olho" — como essa forma rosada central sobre o pedestal marrom — você ancora o espectador no mundo das coisas. Você dá a ele um objeto para reconhecer. No momento em que o espectador reconhece um objeto, a experiência mística termina e a análise intelectual começa. O espectador para de sentir para começar a identificar. Isso é uma interrupção da comunhão artística.
As cores aqui — os laranjas vibrantes, os rosas e os azuis — possuem uma luminosidade interessante, quase como um vitral quebrado. No entanto, elas não têm permissão para respirar. Elas estão presas em compartimentos. A Expansão: No meu trabalho, a cor deve se expandir até os limites da tela para que o espectador se sinta absorvido por ela.
O Confinamento: Nesta obra, a cor é um fundo para o desenho. Ela serve à forma, quando deveria ser a própria essência da experiência.
Esta obra transborda com a energia do intelecto e da observação. É um diário visual de um momento de agitação. Mas falta-lhe o que chamo de "o silêncio da morte". É barulhenta demais para ser transcendental. O artista tem uma mão vigorosa, mas ele ainda teme o vazio. Ele preenche cada canto com símbolos, como se tivesse medo de que, se parasse de desenhar, a pintura desapareceria. Eu diria a ele: apague as linhas. Deixe o rosa e o laranja lutarem sozinhos no escuro. Somente quando você desiste de tentar dizer algo é que você finalmente começa a ser ouvido.



Título: O Vazio Colorido do Jaboticabal

Olho para esta aquarela — se é que podemos chamar esse amontoado de pigmentos diluídos de aquarela — e sinto uma profunda e reconfortante familiaridade. Não pela beleza, que fique claro. Mas porque ela é o retrato perfeito do Brasil contemporâneo: uma mancha azul de otimismo injustificado cercada por um pântano de incertezas rosadas e um borrão alaranjado que parece, invariavelmente, um incêndio institucional.

O autor assina 'Gabriel Limão'. É um nome magnífico. Resume nossa tragédia em duas frutas. O jaboticabal é aquele sonho de quintal de infância que já não existe, e o limão é o que nos restou para chupar enquanto assistimos ao naufrágio.

Note a técnica. Ou a ausência dela. É o que os críticos mais benevolentes chamariam de 'gestualismo espontâneo'. Eu chamo de entropia visual. O centro azul tenta desesperadamente ser um céu ou um lago, mas é sufocado por essa moldura pastosa. É a estética do 'quase'. Quase uma paisagem, quase um conceito, quase uma obra de arte.

No fundo, Limão é um gênio. Ele entendeu que, em um mundo de ruídos, o melhor a fazer é borrar a realidade até que ela se torne inofensiva. É um borrão honesto. E, convenhamos, num país onde tudo é fake, a honestidade de um borrão é quase um ato revolucionário. Ou talvez seja apenas tinta barata. Aposto na segunda opção.



Título: A negra beleza
Dizem que o abstracionismo é o refúgio dos que não sabem desenhar narizes. Bobagem. Olhando para esta tela, percebo que a abstração é, na verdade, uma libertação. O artista aqui resolveu dar férias à anatomia e focar no que realmente interessa: a intenção.
Note o erotismo que emana dessas pinceladas. Não é o erotismo óbvio das revistas de banca, mas algo muito mais perigoso. É o erotismo da sugestão. Existe ali, no centro daquela mancha âmbar, a curva de uma mulher que se recusa a ser apenas uma mulher. Ela é um movimento, um convite feito em aquarela. Há uma sensualidade latente na forma como as linhas escuras tentam, sem sucesso, conter a fluidez das cores. É uma figura que não precisa de rosto para nos olhar de frente; ela nos encara com a própria postura.
Aquele quadrado azul no canto superior esquerdo é o que eu chamaria de "o antigo". Ele está lá, sólido, geométrico, comportado. Representa a ordem, a regra, o mundo onde as coisas tinham o dever de parecer com as coisas. Mas veja como o resto da tela foge dele.
As manchas se espalham com uma liberdade quase debochada. O artista operou uma ruptura. Ele pegou o pincel e decidiu que o compromisso com o real era um contrato vencido. O que vemos é um novo caminho: onde antes havia a rigidez da estátua, agora há a vibração do átomo. "A arte moderna tem essa vantagem sobre a vida: ela pode ser confusa, caótica e incompreensível, e ainda assim ser considerada um triunfo. Na vida real, quando somos confusos e caóticos, costumam apenas nos chamar de 'complicados'."
Neste trabalho, a complicação é um elogio. Ver esta mulher abstrata é como ouvir um jazz experimental: você não sabe exatamente para onde a melodia vai, mas sabe perfeitamente o que ela está fazendo com o seu humor. É um brinde ao desleixo planejado, à curva que não pede licença e à cor que ignora a fronteira do traço.
No fim das contas, quem precisa de um retrato fiel quando se tem uma mancha que pulsa?

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