Negro sou, como a terra que guarda o segredo do trigo,
como a raiz que busca o centro do mundo sem pedir perdão.
Sou a noite que descansa sobre as cordilheiras,
a lousa onde o destino escreve com dedos de fogo.
Não venho de uma cor de passagem,
venho da geologia profunda, do basalto e do carvão ardente.
Minha pele é o mapa de uma resistência antiga,
um território onde o sol decidiu fazer sua morada permanente.
Negro ficarei!
Como o aço se mantém fiel à sua têmpera,
como o mar é fiel à sua espuma amarga e vasta.
Não há vento que apague esta tinta de milênios,
não há inverno que desbote o ébano da minha história.
Sou o eco de tambores que não cansam,
a matéria-prima da vida, o silêncio que precede o canto.
Olho o mundo com olhos de obsidiana
e sinto o pulso do universo batendo no meu sangue.
Amo este brilho escuro,
esta arquitetura de sombras que sustenta a luz.
Pois se o universo é negro em sua imensidão sagrada,
eu sou, nesta terra, um pedaço desse infinito que caminha.
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