Pablo Picasso: “a arte nunca é casta [...], a arte é perigosa
O nu e o erótico não se opõem à forma; eles a desestabilizam. Transitarem entre abstração e figuração não é hesitação, mas método: o corpo aparece ali onde nunca se deixa fixar. O que se vê não é um ideal, mas um resto — vibrante, falho, desejante.Essas obras não mostram o corpo: escrevem-no. E toda escrita, como sabemos, difere e adia. Entre a sugestão e a explicitude, o erotismo se inscreve como intervalo, como aquilo que nunca se entrega por inteiro. O desejo não está no que se revela, mas no que permanece em suspensão, no quase.O corpo humano, longe de ser presença plena, surge como traço. Um traço que carrega intimidade e criatividade porque não coincide consigo mesmo. O erótico, aqui, não é excesso sensorial, mas uma economia do olhar: aquilo que convoca sem possuir.Quando se fala em obras originais e únicas, fala-se também da impossibilidade da repetição do desejo. Cada esboço, cada pequena pintura modernista, reinscreve a diferença — não há nudez primeira, apenas variações de um apagamento inicial.Assim, trazer essas obras para o próprio espaço não é apropriar-se do erotismo, mas hospedar sua instabilidade. A sensualidade que se redescobre não é natural nem universal: é construída, deslocada, sempre outra. O erotismo na arte não afirma o corpo como verdade. Ele o oferece como pergunta.
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