João olha para a sala, mas a sala não olha para João.
Na tela da GNT, o mármore é uma tese, a
poltrona, um manifesto de geometria pura.
Quanta peculiaridade, diz o locutor de voz veludada,
enquanto a câmera acaricia o objeto que ninguém ousa tocar.
Há um excesso de "eu" em cada vaso de murano,
uma biografia escrita em estantes sem pó.
Mas os donos, esses náufragos de luxo,
não aproveitam o silêncio nem o ruído.
Eles habitam o ângulo, nunca o conforto.
É tudo sabotagem, murmura o anjo torto.
A vida foi trocada pelo enquadramento.
O café não mancha, o jornal não amassa,
e o tempo, esse bicho faminto, morre
de tédio diante de tanta harmonia.
No meio do caminho tinha um brilho,
tinha um brilho no meio do caminho.
Mas por trás da moldura, o que resta
é o desejo vago de uma casa que aceite
a bagunça sagrada de quem apenas vive.
Nenhum comentário:
Postar um comentário