Na curva de uma estrada de seda,
onde o vento tem dentes de cal,
caminha a rainha de ébano,
entre o sonho e o laranjal.
Sua voz é uma faca de vidro,
seu corpo, um junco de luz, negra
como a sombra da lua,
que o próprio sol seduz.
O cigano, de olhos de menta,
com o peito cheio de brasa,
viu nela o mistério do mundo
que não se prende nem tem casa.
— "Ai, morena de lábios de fogo,
flor de uma raça inventada,
teu passo apaga a poeira,
tua alma é a madrugada!"
Ele estende as mãos de cobre,
carregadas de anéis e de feitiço:
— "Vou te dar os rios do mundo,
o ouro que corre submisso!
Prometo-te as minas do norte,
moedas de prata lunar, para ver
teu riso de ônix sobre o meu peito brilhar."
— "Quero ver-te vestida de brios,
com mantos de seda e de sol,
serás a dona do tempo, meu único
e terno farol. Pois
no balanço dos teus quadris,
onde a vida se faz e se desfaz,
eu vi que o dinheiro é pouco perante
a paz que você me traz."
A lua, como uma onça, dança
sobre o seu caminhar, enquanto o
cigano promete o que o mundo não
pode pagar. Negra, trans, divina
e altiva, sob o céu de verde cristal,
ela é o verso que Lorca não disse,
o brilho de um reino imortal!
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