segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Romance da Pele de Noite e o Cigano do Ouro


Na curva de uma estrada de seda, 

onde o vento tem dentes de cal,

 caminha a rainha de ébano, 

entre o sonho e o laranjal. 

Sua voz é uma faca de vidro, 

seu corpo, um junco de luz, negra

 como a sombra da lua, 

que o próprio sol seduz.


O cigano, de olhos de menta,

 com o peito cheio de brasa, 

viu nela o mistério do mundo 

que não se prende nem tem casa. 

— "Ai, morena de lábios de fogo, 

flor de uma raça inventada, 

teu passo apaga a poeira,

 tua alma é a madrugada!"


Ele estende as mãos de cobre, 

carregadas de anéis e de feitiço: 

— "Vou te dar os rios do mundo, 

o ouro que corre submisso! 

Prometo-te as minas do norte, 

moedas de prata lunar, para ver

 teu riso de ônix sobre o meu peito brilhar."


— "Quero ver-te vestida de brios, 

com mantos de seda e de sol, 

serás a dona do tempo, meu único 

e terno farol. Pois 

no balanço dos teus quadris, 

onde a vida se faz e se desfaz,

eu vi que o dinheiro é pouco perante 

a paz que você me traz."


A lua, como uma onça, dança

 sobre o seu caminhar, enquanto o

 cigano promete o que o mundo não

 pode pagar. Negra, trans, divina 

e altiva, sob o céu de verde cristal, 

ela é o verso que Lorca não disse,


 o brilho de um reino imortal!

Nenhum comentário:

Postar um comentário