domingo, 11 de janeiro de 2026

A Canção da Escama Negra

 O ar noturno da Floresta Vermelha estava espesso com o cheiro de ozônio e terra molhada. Tadeus, cujos óculos redondos estavam perpetuamente tortos, apertava sua varinha de pereira com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ao seu lado, Rouina parecia uma estátua de mármore sob o luar; sua pele pálida brilhava com um fulgor frio, e os olhos, geralmente de um castanho suave, agora cintilavam com um perigoso tom escarlate.

— Ela está perto — sussurrou Rouina, sua voz como o roçar de seda no gelo. — Consigo ouvir o bater do coração... frio, lento e cheio de veneno.

Um ruído baixo de escavação veio debaixo de um arbusto de urtigas. Elias, um texugo de pelagem prateada e olhos que brilhavam com uma inteligência milenar, emergiu sacudindo a poeira das garras. Ele não era um texugo comum; pequenas faíscas azuis saltavam de seus bigodes sempre que ele farejava o perigo.

— O túnel está pronto, Tadeus — sibilou Elias, sua voz ecoando diretamente na mente do bruxo. — Quando a Serpente se erguer, o solo sob ela não passará de uma armadilha de areia.

De repente, a vegetação se partiu. A Serpente do Mal, uma criatura de escamas negras como obsidiana e do tamanho de um tronco de carvalho, deslizou para fora das sombras. Seus olhos amarelos fixaram-se no trio, exalando um vapor esverdeado que murchava as flores instantaneamente.

— Agora! — gritou Tadeus, brandindo a varinha. — Explodius! — Não que a cobra tivesse uma varinha, mas o feitiço de desarmamento, impulsionado pelo puro pavor de Tadeus, atingiu as escamas da criatura como um martelo físico, atordoando-a.

Num borrão de velocidade sobrenatural, Rouina saltou. Ela não usava magia de varinha, mas a força bruta de sua linhagem; suas mãos agarraram o pescoço da fera, mantendo as presas venenosas longe de Tadeus. No mesmo instante, Elias bateu as patas dianteiras no chão. Com um estalo seco, a terra se abriu em um abismo sob a cauda da serpente.

Eles eram um trio improvável: o bruxo hesitante, a vampira exilada e o guardião das raízes. Mas ali, sob as estrelas, a lealdade que os unia era mais poderosa do que qualquer feitiço das trevas. A serpente sibilou em agonia enquanto era tragada pelas profundezas, e Tadeus sentiu o calor da vitória — não pela magia em si, mas pela certeza de que nunca teria que lutar sozinho.


O vento soprava como uma lâmina de gelo através das ruínas de Soluço de Pedra, mas o cheiro que subia do abismo era mais cortante: o fedor de enxofre e escamas podres.

Tadeus ajustou o manto de lã áspera, sentindo o peso dos anos em seus ossos mais do que o peso de seu cajado de freixo. Ele já havia visto reinos caírem e o verão dar lugar a invernos que pareciam eternos, mas aquela coisa — a Serpente de Obsidiana — era uma fome antiga que não constava nos livros da Cidadela.

"Ela está perto," murmurou Rouina. Ela não tremia. O frio era seu elemento tanto quanto o sangue que corria, roubado e quente, em suas veias. Sob o luar pálido, sua pele tinha a cor do marfim polido, e seus olhos eram duas fendas de rubi que enxergavam o que a morte escondia. Ela tocou o punho de sua adaga de prata, um presente de Tadeus de dez verões atrás. "O rastro de fumaça é espesso. Posso ouvir o coração dela... batendo como um tambor de guerra nas profundezas."

Entre eles, rente ao chão, um movimento súbito na neve revelou Elias. Para um observador tolo, ele era apenas um texugo de pelagem cinzenta e garras afiadas. Mas quando Elias rosnou, o ar ao seu redor vibrou com um brilho azulado, e as runas esculpidas em seu pequeno colar de couro pulsaram. Ele não falava a língua dos homens, mas Tadeus entendia o brilho selvagem em seus olhos: morte ou glória, e que o aço (ou a garra) decida.


A serpente emergiu não como um animal, mas como uma avalanche de escamas negras. Era vasta, um deus de escamoso pesadelo que devorava a luz.

O Bruxo ergueu o cajado, e palavras em uma língua esquecida queimaram o ar. Um arco de fogo branco saltou da madeira, iluminando as presas da fera.

A Vampira foi um borrão de sombra e aço, saltando sobre o dorso da criatura, cravando sua adaga entre as placas de queratina enquanto o monstro sibilava um ódio mais velho que as montanhas.

O Texugo mergulhou sob o ventre da serpente, suas garras envoltas em energia arcana, rasgando a carne blindada com a fúria de um cavaleiro em miniatura.

Eles eram uma estranha irmandade: o mestre das artes proibidas, a predadora da noite e a fera guardiã. Em um mundo de reis traidores e deuses indiferentes, restava-lhes apenas o calor daquela fogueira invisível que homens chamam de lealdade. O sangue negro da serpente manchou a neve virgem, e o grito do monstro ecoou pelos picos gelados, mas o trio permaneceu firme. Pois, como Tadeus bem sabia, o medo corta mais profundo que a espada, mas a amizade é o único escudo que não se quebra sob o peso do destino.

O vapor subia do sangue negro da serpente, que chiava contra a neve como ferro em brasa. O silêncio que se seguiu ao último espasmo da criatura foi pesado, quebrado apenas pelo arquejo seco de Tadeus e pelo som metálico de Rouina limpando sua adaga em uma capa de seda rasgada.

Tadeus apoiou-se no cajado, as mãos trêmulas traindo a fraqueza que a magia sempre cobrava. Ele olhou para os companheiros — uma criatura que deveria caçá-lo e um animal que deveria temê-lo.

— O mundo vai dizer que este dia nunca existiu — disse o bruxo, a voz rouca como cascalho sendo arrastado. — Os meistres escreverão sobre tempestades de inverno ou terremotos. Eles não suportam a ideia de que o destino dos homens foi decidido por um velho exausto, uma morta-viva e um texugo com temperamento de carrasco.

Rouina guardou a adaga com um movimento fluido, seus olhos rubis recuperando a calma predatória. Ela se aproximou de Tadeus e, com uma delicadeza que escondia a força capaz de esmagar pedra, ajeitou a gola do manto do bruxo.

— Deixe que fiquem com suas mentiras, Tadeus — ela sorriu, revelando a ponta das presas. — A verdade é um vinho amargo que poucos têm estômago para beber. Eu prefiro o gosto do que conquistamos aqui. Embora... — ela olhou para o próprio braço, onde uma escama da serpente havia rasgado sua pele de mármore — ...este vestido tenha custado mais do que a vida de muitos lordes.

Elias aproximou-se trotando, sacudindo a neve e o sangue das escápulas. Ele parou entre os dois e soltou um bufo curto, uma espécie de espirro desdenhoso, antes de começar a lamber uma das patas dianteiras com uma indiferença calculada.

— Ele diz que você reclama demais para quem tem a eternidade pela frente, Rouina — traduziu Tadeus, com um esboço de riso que terminou em tosse. — E diz que a serpente tinha um gosto horrível. Pura bile e maldade.

Rouina soltou uma risada fria, mas não desprovida de afeto.

— O pequeno mestre tem razão. Onde está o vinho, bruxo? O de verdade. O sol vai demorar a nascer, e meu pescoço está seco.

— Na minha bolsa — respondeu Tadeus, endireitando as costas com esforço. — Um tinto de Dorne, forte o suficiente para queimar o juízo de um septão.

Ele olhou para a carcaça da serpente uma última vez antes de dar as costas ao abismo.

— Venham. O inverno ainda não acabou, e os mortos não fazem companhia a ninguém. Temos um longo caminho até a próxima estalagem... e eu não pretendo morrer antes de esvaziar aquela garrafa.

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