Em uma mansão torta, num bairro cinzento,
Vivia o pequeno Edgar, um tormento.
Vestia luto fechado, cetim e veludo,
E com seus olhos fundos, odiava tudo.
Principalmente o Sol, aquele astro intruso,
Que queimava sua pele com seu brilho difuso.
As cortinas de ferro, trancadas a sete chaves,
Protegiam Edgar dos dias suaves.
Ele amava o mofo, o silêncio, a poeira,
Passava os dias trancado, a vida inteira.
Brincava com aranhas, comia bolor,
Um pequeno vampiro sem medo ou dor.
A família tentava, com muito pesar,
"Saia pra fora, querido, vá respirar!"
Mas Edgar tremia, pálido e doente,
Desejando a morte do tio, ou da tia, sorridente.
E foi numa tarde, o céu desabou,
Uma tempestade terrível, o mundo parou.
Raios cortavam, o vento uivava,
E na sala escura, um sorriso brilhava.
"Ah, que dia lindo! Que céu de carvão!"
Disse Edgar, batendo palmas com emoção.
"A chuva é sublime, o mundo se desfaz!"
Mas a alegria maior estava por vir, logo atrás.
Toca a campainha, um telegrama fatal:
"A Vovó Agatha partiu para o além-tumulo tal.
Escorregou no tapete, quebrou o pescoço,
Deixando a herança e um belo osso."
Edgar leu a notícia, seus olhos brilharam,
Dentes afiados como agulhas se mostraram.
Um sorriso macabro, de orelha a orelha,
Naquele rosto pálido, sob a luz da vela.
"A vovó se foi! Oh, que dia feliz!
Chuva e velório, tudo o que eu quis!"
Ele vestiu sua melhor gravata borboleta,
Preparando-se para a festa, uma cena completa.
Enterros e tempestades, sua única alegria,
O pequeno Sr. Sombra, em sua macabra harmonia.
Pois no mundo de Edgar, tão frio e profundo,
A morte e a chuva são o sol deste mundo.
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