quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O Pequeno Sr. Sombra


Em uma mansão torta, num bairro cinzento,

Vivia o pequeno Edgar, um tormento.

Vestia luto fechado, cetim e veludo,

E com seus olhos fundos, odiava tudo.


Principalmente o Sol, aquele astro intruso,

Que queimava sua pele com seu brilho difuso.

As cortinas de ferro, trancadas a sete chaves,

Protegiam Edgar dos dias suaves.


Ele amava o mofo, o silêncio, a poeira,

Passava os dias trancado, a vida inteira.

Brincava com aranhas, comia bolor,

Um pequeno vampiro sem medo ou dor.


A família tentava, com muito pesar,

"Saia pra fora, querido, vá respirar!"

Mas Edgar tremia, pálido e doente,

Desejando a morte do tio, ou da tia, sorridente.


E foi numa tarde, o céu desabou,

Uma tempestade terrível, o mundo parou.

Raios cortavam, o vento uivava,

E na sala escura, um sorriso brilhava.


"Ah, que dia lindo! Que céu de carvão!"

Disse Edgar, batendo palmas com emoção.

"A chuva é sublime, o mundo se desfaz!"

Mas a alegria maior estava por vir, logo atrás.


Toca a campainha, um telegrama fatal:

"A Vovó Agatha partiu para o além-tumulo tal.

Escorregou no tapete, quebrou o pescoço,

Deixando a herança e um belo osso."


Edgar leu a notícia, seus olhos brilharam,

Dentes afiados como agulhas se mostraram.

Um sorriso macabro, de orelha a orelha,

Naquele rosto pálido, sob a luz da vela.


"A vovó se foi! Oh, que dia feliz!

Chuva e velório, tudo o que eu quis!"

Ele vestiu sua melhor gravata borboleta,

Preparando-se para a festa, uma cena completa.


Enterros e tempestades, sua única alegria,

O pequeno Sr. Sombra, em sua macabra harmonia.

Pois no mundo de Edgar, tão frio e profundo,

A morte e a chuva são o sol deste mundo.

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