Houve um tempo, nas neblinas úmidas de Yorkshire, em que a magia e o metal comum mantinham uma trégua silenciosa e desconfiada. Os bruxos daquela região viviam recolhidos em suas chalés de telhados de musgo, olhando com desprezo divertido para as engenhocas grosseiras que os trouxas inventavam para se locomover.
Entre eles vivia Barnaby Gasket, um bruxo de barbas tão longas que precisava amarrá-las com fitas de veludo para não tropeçar nelas ao preparar poções. Barnaby era um homem de sabedoria antiga e paciência curta. Ele desprezava qualquer coisa que exigisse suor físico quando um simples Accio ou uma vassoura enfeitiçada podiam resolver o problema.
Numa tarde de outono, ao retornar do vilarejo trouxa de Little Snoring com uma cesta de nabos encantados, Barnaby encontrou algo abandonado à beira da cerca de sua propriedade. Era um emaranhado de tubos de ferro enferrujados, duas rodas finas com raios de arame que tilintavam ao vento, e um selim de couro rachado. Era uma bicicleta de trouxa, modelo 1892, deixada para trás por um carteiro cansado.
Barnaby aproximou-se com a varinha em punho, farejando o ar como um testrálio diante de uma carcaça desconhecida.
— Uma tolice mecânica — murmurou ele, cutucando o pedal com a ponta da bota. — Sem asas, sem runas de levitação, sem um pingo de essência de mandrágora. Apenas graxa e metal sem rumo.
Mas a curiosidade, essa falha que acomete tanto os tolos quanto os grandes arquimagos, falou mais alto. Barnaby decidiu que desmancharia a traquitana para usar as engrenagens em seus caldeirões. Montou a bicicleta de qualquer maneira, equilibrando-a precariamente, e apontou a varinha para a corrente, pretendendo enfeitiçá-la para que flutuasse até seu laboratório.
Porém, um espirro intempestivo — causado por um pólen alérgico que flutuava dos arbustos — fez com que sua varinha espirrasse faíscas rubras diretamente sobre o selim.
A bicicleta não flutuou. Ela estremeceu. Um som metálico, agudo e estridente ecoou pela campina, como o ganido de um pelúcio zangado. As rodas giraram sozinhas com uma velocidade furiosa, e o guidão saltou nas mãos de Barnaby, torcendo-se como uma cobra assustada. Antes que o bruxo pudesse proferir um contra-feitiço, a engenhoca disparou ladeira abaixo, levando o velho bruxo agarrado a ela como um carrapato em um hipogrifo desgovernado.
— Parar! — gritou Barnaby, o vento arrancando as fitas de sua barba. — Imobilulus! Arresto Momentum!
Os feitiços saltavam da varinha, mas a bicicleta, infundida com a energia caótica da magia acidental e a obstinação mecânica dos trouxas, parecia imune à alta magia. Ela não obedecia às leis da física nem às regras da feitiçaria. Subiu morros íngremes sem perder o fôlego, cruzou riachos saltando de pedra em pedra como um sapo de chumbo, e ziguezagueou por entre o rebanho de ovelhas mágicas de um vizinho, que espalharam lã prateada por todo o campo.
Enquanto voava pelo ar em curvas impossíveis, Barnaby percebeu algo extraordinário. A vassoura exigia foco mental, equilíbrio refinado e uma certa graça aérea que ele nunca tivera. Mas a bicicleta... a bicicleta exigia ritmo. Exigia que ele sincronizasse o balanço de suas pernas envelhecidas com o girar implacável das rodas.
Sem perceber, o bruxo começou a rir. Uma risada rouca e estrondosa que há décadas não escapava de seu peito. Esqueceu a dignidade de sua túnica rasgada e o medo de se espatifar contra um carvalho centenário. Ele impulsionou os pés nos pedais de ferro, sentindo a queimação nas articulações, uma dor perfeitamente humana e terrivelmente viva que nenhuma poção de cura conseguia imitar.
Após dar sete voltas completas em torno do monte mais alto de Yorkshire, a bicicleta finalmente desacelerou por si mesma, parando exatamente no mesmo lugar onde havia sido encontrada, diante da cerca de Barnaby.
O bruxo desceu cambaleando, as pernas trêmulas, o chapéu pontudo torto na orelha e o rosto corado. A corrente fumegava levemente, e os pneus estavam gastos, mas a engenhoca repousava em silêncio, como se nada tivesse acontecido.
Barnaby Gasket passou os dias seguintes trancado em sua oficina. Não para desmontar a bicicleta, mas para estudá-la. Diz a lenda que ele nunca mais voltou a usar sua vassoura para pequenas viagens, e que, nas noites de lua cheia, os moradores de Little Snoring podiam ver a silhueta de um velho bruxo de barbas amarradas pedalando furiosamente pelos campos, rindo para as estrelas, tendo descoberto que a verdadeira magia, às vezes, precisa apenas de um empurrãozinho humano
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