Era uma vez, na rua Beco, em Paris, um bruxo chamado Aristide que não sabia fazer feitiçaria nenhuma, mas tinha um diploma em filosofia barata e um burro cinzento que havia lido a Bíblia inteira só para poder discutir com o dono.
— Aristide — disse o burro, balançando as orelhas compridas —, você insiste em tentar transformar este tijolo em ouro, mas esquece que o ouro é uma invenção de banqueiros sem imaginação. O verdadeiro mistério está no feno.
O bruxo franziu a testa, ajeitou a túnica de estopa que fedia a poeira e respondeu:
— Cale a boca, animal! Você só pensa em capim porque seu povo nunca soube lidar com a metafísica da transcendência!
— Meu povo? — retrucou o quadrúpede, cruzando as patas dianteiras com um ar de superioridade acadêmica. — Sou um burro universal. Não tenho pátria, não tenho Torá, não tenho dogma. Apenas mastigo e raciocino, duas atividades que você abomina em prol da sua pequena teologia de calçada.
Nesse exato momento, bateu à porta uma velha bruxa caolha, vestida com trapos pretos e carregando um cesto cheio de maçãs podres. Era a vizinha do terceiro andar, especializada em pragas domésticas e panfletos conspiratórios.
— Bom dia, Aristide! Trago novidades terríveis — anunciou ela, sentando-se sem ser convidada. — Descobri que o padeiro da esquina é descendente de um clã milenar de gigantes sumérios que controlam o preço da farinha através de redes cabalísticas invisíveis!
— Eu sabia! — gritou o bruxo, dando um salto que derrubou sua varinha de condão feita de cabo de vassoura. — Tudo está conectado! Os sumérios, os profetas, o sistema financeiro internacional e o fato de que meu café com leite sempre vem frio! Precisamos escrever um manifesto de setecentas páginas imediatamente!
O burro soltou um suspiro profundo, daqueles que fazem tremer as paredes de gesso podre, e abanou o rabo para afastar uma mosca teimosa.
— Vocês dois sofrem da mesma doença — murmurou o animal, fechando os olhos com tédio. — Inventam inimigos colossais porque têm medo do vazio do próprio cérebro. O bruxo culpa os deuses antigos e os escribas; a bruxa culpa o padeiro e a geometria sagrada. No fim das contas, nenhum de vocês sabe fazer um feitiço decente para espantar as moscas, mas adoram discursar sobre a ordem cósmica.
Aristide olhou para o burro, depois para a bruxa caolha, e os dois concordaram num ponto raro:
— Cale a boca, burro insolente! Você não entende nada de geopolítica mística!
E o burro, bocejando, voltou a mastigar o capim, pensando consigo mesmo que, entre deuses, bruxos e profetas, o único ser realmente lúcido em Paris era aquele que contentava-se em carregar sacas de batatas sem precisar explicar a origem do universo.
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