quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A lenda do Primeiro e Nefastus

 

            Nas altas eras antes de o tempo contar os dias pelos ciclos do sol, nos salões incriados onde a luz tece o próprio tecido do ser, habitava aquele a quem os antigos chamavam de o Primeiro. Seu trono era forjado do mais puro ouro que jamais conheceu escória, e sobre sua fronte repousava uma coroa de fogo reluzente, viva e inextinguível. Em suas mãos, que detinham o peso e a medida dos mundos, ele guardava uma espada de chamas azuis, cortante como a verdade, e um escudo de prata polida onde dormiam cinco estrelas imortais.

            Na língua dos elfos, que guarda o eco dos primeiros pensamentos, ele era nomeado apenas como o Outro; pois sua majestade era vasta demais para caber nos nomes comuns, e o pavor reverente impedia que seus lábios pronunciassem sua verdadeira designação. Ele era o artífice, o Senhor da Chama Imperecível, aquele cuja vontade gerou a dança dos planetas e a tapeçaria das constelações que pontilham a vastidão da noite.

            Mas a harmonia da criação jamais esteve isolada da sombra. Nas profundezas onde o silêncio     devora as formas, habitava seu irmão, Nefastus — um espírito de terror incomensurável, cuja essência se enroscava na penumbra em uma imensa forma de aranha, coroada por uma face humana de fria e implacável malevolência. Entre os dois estendia-se um abismo intransponível de propósitos. Enquanto o Primeiro desejava que o ser florescesse e cantasse em louvor à luz, Nefastus buscava desfazer os fios, corromper a tapeçaria e arrastar o cosmos de volta à estéril geometria do nada. Houve incontáveis batalhas entre a espada azul e as garras do vazio. O Primeiro, em sua longanimidade, tentou por eras erguer barreiras contra o ódio de seu irmão. Contudo, em uma hora de profunda e terrível reviravolta, a traição e a astúcia de Nefastus prevaleceram, lançando o criador das estrelas nas profundezas vertiginosas do Poço do Vazio.

                Apesar da queda, o espírito do Outro não conheceu a morte, pois o que nasce da chama pura não pode ser extinto, apenas ocultado. E das profundezas escuras, ergueu-se novamente a promessa da aurora, enquanto Nefastus, preso à sua própria fome insaciável, jurava vingança eterna, sabendo que, enquanto houvesse uma única estrela a brilhar no céu, o seu domínio estaria incompleto.

 

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