A felicidade é uma fraude grosseira, um truque de luz para esconder o ruído das vísceras. O corpo é um carcereiro; sua inquietação é a medida da derrota da mente, que, servil, acompanha cada espasmo da carne. A fortuna é apenas o nome que damos à nossa incapacidade de mudar o destino. Vida e morte? Duas faces da mesma vacilação. Não há essência no prazer, apenas a fome do momento ou o entorpecimento do hábito. O rico e o pobre não diferem na qualidade da dor, apenas na sofisticação da desculpa. A liberdade e a servidão, o nome de família e a infâmia, são máscaras que não alteram a face do carrasco. O homem, no fim, olha para o espelho e vê apenas a sua própria importância. Ele calcula a existência como um usurário. Acredita que, se o mundo inteiro fosse colocado em uma balança, não pesaria tanto quanto a sua própria segurança — porque, em sua cegueira, ele nunca encontrou alguém que pudesse lhe oferecer algo que valesse mais do que a sua própria sobrevivência. A sabedoria não é uma busca, é uma fuga. O sábio não caça o bem — ele sabe que o bem é uma isca —; ele constrói barricadas contra o sofrimento. O ápice da existência não é o êxtase, é a ausência de ruído: o silêncio da dor. Para alcançar este estado de vácuo, ele se torna um mestre da indiferença. Ele trata os artifícios do prazer como estranhos, pois entende que qualquer dependência é uma porta aberta para a tortura. Ele se retira, desarmado e impenetrável, tornando-se o seu próprio santuário contra o desastre que é viver.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
O Equilíbrio das Sombras
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