O vento, esse lamento, essa mão que suspira,
Passa na vidraça, um espectro, um tropel,
Onde a vida, em sua ânsia, em dores se vira,
Como um livro de névoa, de bruma e papel.
Era o ímpeto, a chama, o clarão da aurora,
A adolescência — um voo em risos de sol!
Mas o vento, o destino, já chora e devora,
Como o outono que invade o vão do farol.
O sopro que outrora era alento e alvorada,
Torna-se em ruga, em vidro, em opaco cristal;
A vida, essa sombra, em poeira calada,
Desliza, envelhecendo, em silêncio abissal.
Na janela, o tempo, em seu rito constante,
Transforma o viço em cinza, o sonho em desdém;
E o vento, que passa, veloz, delirante,
Leva a infância e a velhice, o nada e o além.
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