Eis o teatro do nada, a trágica tela onde o ser se desbota,
Numa moldura de astros frios, num cenário de abismo e de pó;
A vida — esse espectro que a alma, em sua ânsia, desata e esgota,
É a obra do acaso, bordada em silêncio, num fado que vive só.
Não há no pincel do Destino uma meta, um traço, uma essência,
É pura sinfonia de sombras, num palco de vácuo e de dor;
Pintamos o nada com luzes de sonho, com vã consciência,
Buscando o sentido num quadro que sangra a cor do temor.
Ó tragédia sem nome! Que o olho do gênio contempla, assustado,
A existência é um risco, um delírio, um gesto de insânia solar;
O tempo, esse crítico mudo, devora o que foi consagrado,
E a arte do viver se dissolve, em cinzas, no imenso pesar.
Sem centro, sem cume, sem pátria, a alma, em seu voo erradio,
É estátua partida que o vento do eterno desfez no desdém;
A vida é o retrato do abismo, o perfume que foge bravio,
Uma obra-prima vazia, que passa do nada para o além.
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