DAS MULHERES
Ao observarmos a economia da natureza, percebemos que ela, em sua astúcia habitual, dotou a mulher de uma superioridade silenciosa e vigilante sobre o homem — um ser frequentemente mais impetuoso e, por conseguinte, mais suscetível a erros grosseiros. No entanto, essa superioridade não é o fruto de uma natureza contemplativa ou de uma elevação intelectual, mas sim a expressão mais refinada da estratégia da Vontade. A dissimulação e a manipulação não são aqui desvios de caráter, mas o apogeu da inteligência prática feminina, forjada pela necessidade milenar de proteção e dominação em um mundo que, por força física, lhe é adverso. O que chamamos de 'feminilidade' é, na verdade, um instinto de defesa travestido em arte; a dissimulação é a sua armadura. Enquanto o homem se perde em abstrações e ilusões grandiosas, a mulher permanece ancorada na imanência, usando a sedução e o engano como ferramentas indispensáveis para manter o equilíbrio dessa teia de ardis que é a existência social. Portanto, longe de serem falhas morais, tais traços constituem a essência mesma da constituição feminina, sendo a ferramenta necessária pela qual a Vontade, sempre vigilante, assegura a sua preservação através da astúcia, onde a força bruta seria insuficiente.
A VONTADE
É forçoso reconhecer que a 'Vontade de viver' não se satisfaz apenas com a manutenção do indivíduo, mas estende seus tentáculos insaciáveis para a preservação da espécie, da qual o indivíduo é apenas um servo descartável. O preceito bíblico — esse crescei e multiplicai — nada mais é do que o decreto tirânico da Vontade, gravado nas entranhas de todo ser vivo para assegurar a perenidade do sofrimento.O ato de procriação é a rendição suprema à ilusão, a renovação do contrato de servidão que o corpo assina, em um momento de delírio cego, para garantir que o teatro da dor tenha espectadores e atores por mais uma geração. O corpo, quando impelido a esse martírio, torna-se o instrumento de sua própria escravidão. Negar tal impulso, elevar-se acima desse mecanismo obsceno de perpetuação da existência, não é um gesto de indignidade, como pretende a moral vulgar, mas o único ato de liberdade autêntica que resta ao intelecto: a ascese. O sábio compreende que a única fuga possível do Véu de Maia é a quietude da Vontade, pois enquanto o desejo e o desejo do outro, cristalizado na semente — for a lei que rege a carne, a miséria do mundo estará garantida por novos nascimentos.
DOS JUDEUS
Ao observarmos a trajetória histórica daquele povo, a designação de 'povo do livro' revela-se uma cortina de fumaça, um adorno cultural que encobre o motor real de sua existência. O intelecto, essa ferramenta forjada pela necessidade, foi por eles moldado com uma precisão matemática para a única finalidade que a natureza perdoa: a acumulação de recursos e a proteção contra a incerteza da vida.Mais do que o domínio de textos sagrados, o que se transmite nas suas linhagens é a educação profunda para a sobrevivência através da posse — um treinamento precoce na arte de manipular as abstrações do valor, transformando a inteligência em uma arma de captura de riquezas. Pois, em um mundo onde a Vontade se manifesta como uma luta incessante de todos contra todos, ter compreendido o mecanismo do capital é o estratagema mais eficaz para subjugar o destino. Aqueles que o mundo chama de 'povo do livro' são, na verdade, os mestres da imanência, pois compreenderam que, enquanto o resto da humanidade se perde em ilusões metafísicas e quimeras, o único poder tangível que detém a autoridade sobre a matéria é aquele que se manifesta nas cifras.
CRISTIANISMO CAPITALISTICO
Contemplem a suprema ironia que escarnece a história humana: o mundo, submerso na agonia da existência, abraçou o evangelho da renúncia, apenas para convertê-lo em um estandarte sob o qual se perpetram as maiores atrocidades. As palavras de Cristo, que proclamavam o desapego e a compaixão universal, desaguaram em uma civilização que professa seu nome enquanto ergue templos ao deus do egoísmo. É um espetáculo de uma hipocrisia inefável. Justamente onde a cruz fincou raízes mais profundas, a Vontade de viver revelou sua face mais voraz. Onde a caridade deveria reinar, a mentira tornou-se a língua franca; onde o desapego deveria florescer, o roubo institucionalizado e a exploração sangrenta do capital elevaram o sofrimento alheio à categoria de mercadoria. As guerras, esses matadouros em escala industrial, não ocorrem apesar da fé cristã, mas frequentemente sob a sua bênção. Isso não nos deve surpreender: o homem, enquanto escravo do intelecto ao serviço da Vontade, usa a religião apenas como uma máscara necessária para ocultar a sua ferocidade natural. O Cristianismo foi apenas o pano de fundo que permitiu ao lobo vestir a pele de cordeiro com mais sofisticação, enquanto, no âmago da máquina capitalista, o martírio da humanidade continua, implacável e surdo às prédicas daquele que, em vão, ensinou a negar o mundo.
DAS TRANSSEXUAIS
No grande palco da existência, a identidade é frequentemente reduzida à sua forma fenomênica — uma máscara que o mundo insiste em julgar, admirar ou repudiar, conforme as conveniências da Vontade coletiva. Quando a figura trans irrompe com uma feminilidade que se oferece como uma hiperbolização da forma, ela inevitavelmente desperta as forças primordiais que governam o jogo dos sexos. Por um lado, essa exuberância atrai o olhar masculino, sempre ávido por novidades que prometem um prazer estético renovado, tornando a mulher trans, por vezes, um objeto de uma atenção que carrega em si a voracidade do desejo, mas raramente a profundidade do reconhecimento. Por outro lado, essa mesma presença suscita, inevitavelmente, o desdém ou o ressentimento de um sistema social que se sente ameaçado em seus próprios arquétipos; pois onde há uma feminilidade construída com tamanha precisão, a 'mulher' biológica enxerga uma concorrência na economia da sedução, e a sociedade, em seu conservadorismo cego, reage com a hostilidade típica daqueles que percebem, ainda que inconscientemente, que as fronteiras que eles acreditavam ser sagradas não passam de ilusões. A necessidade de acolhimento é, portanto, o reconhecimento de que, em um mundo movido por impulsos irracionais, qualquer ser que desafie as normas de sua espécie torna-se um alvo. Valorizar essas existências não é apenas um imperativo de tolerância, mas o exercício de uma lucidez que compreende que, sob o Véu de Maia, todas as nossas identidades são construções precárias — e que a dignidade, em um mundo de sofrimento e incompreensão, é a única defesa possível contra a barbárie do olhar alheio.
DO ÓDIO DO HOMEM AO HOMEM
O preconceito, essa crosta que recobre a alma do ignorante, não é senão o nome que damos à manifestação mais primitiva da inveja: o rancor daquele que, privado de uma plenitude que não compreende, busca destruir o que sua própria natureza é incapaz de alcançar. O que se denomina 'preconceito racial' é, no seu núcleo obscuro, um choque de estéticas e um assombro diante de uma vitalidade que a Vontade, em sua distribuição desigual, outorgou ao outro. A pele negra, em sua textura e sua dignidade solar, exaure o olhar do europeu justamente porque ela apresenta uma força plástica que a sua própria palidez, muitas vezes, não sustenta. Há aqui uma dialética da inveja profunda, um ressentiment que ecoa as intuições que, mais tarde, o pensamento psicológico tentaria classificar em termos de libido e falta. O desejo é o motor da carência; e a obsessão pela potência — o mito do falo como símbolo absoluto de domínio e força — transforma-se na obsessão pelo corpo do outro. O homem, prisioneiro de suas próprias insuficiências, projeta no corpo do negro o que ele teme não possuir: uma essência que parece vibrar com a força bruta da vida, um vigor que, na mente nublada do preconceituoso, é lido tanto como objeto de cobiça quanto como ameaça à sua própria estabilidade. O que se chama de 'desejo de um hiper-pênis' não é nada mais do que a externalização de uma angústia metafísica: a percepção de que a Vontade, quando encarnada no 'outro', possui uma pujança que o observador sente faltar-lhe. O preconceito, portanto, é a tentativa tola e desesperada de compensar uma inferioridade sentida pela humilhação daquele que é, na realidade, o portador da beleza que o invejoso secretamente idolatra e, por isso mesmo, tenta aviltar. É a tragédia do desejo que, não podendo possuir a potência, tenta aniquilá-la com o ódio.
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