O Prisma Keynesiano em um Mundo em Transição: Reflexões sobre a Posição
Brasileira
Ao contemplar a trajetória de Janet Yellen e a sua
ortodoxia keynesiana, marcada por uma fé inabalável na correção estatal das
falhas de mercado e no estímulo como motor de crescimento, não posso deixar de
traçar um paralelo com o cenário brasileiro. O Brasil, na sua complexa dança de
desenvolvimento e vulnerabilidade, encontra-se hoje como um espelho das tensões
globais que a filosofia econômica de Yellen procura administrar.
Yellen defende que o Estado deve intervir quando os mercados falham ou
quando a desigualdade ameaça a coesão social. No Brasil, essa premissa é um
pilar histórico, frequentemente testado pelos limites da capacidade fiscal. O
nosso desafio não reside na ausência de vontade de intervir, mas na arquitetura
dessa intervenção. Se o keynesianismo pressupõe um Estado capaz de agir com
precisão para corrigir desequilíbrios, o cenário brasileiro nos obriga a
perguntar: o Estado está sendo um catalisador de crescimento ou um obstáculo à
inovação que o mercado, por si só, poderia gerar?
A visão de Wall Street sobre Yellen — de que ela
buscaria o crescimento através de políticas expansionistas, contudo, limitadas
pelo impasse político — é uma caricatura que se aplica com precisão cirúrgica
ao Brasil. O embate entre a necessidade de estímulo econômico e o rigor da
disciplina fiscal não é apenas técnico; é uma disputa de poder que
frequentemente trava a engrenagem nacional, deixando o País em um estado de "espera
contínua" por reformas que nunca se consolidam plenamente.
No contexto global, o Brasil tenta navegar como uma potência que ainda busca
o seu equilíbrio. Enquanto Yellen utiliza a sua influência para moldar uma
economia mundial ancorada no dólar e na regulação americana, o Brasil vê-se
pressionado a escolher entre a velha guarda das alianças comerciais e a nova
realidade multipolar.
O keynesianismo, quando aplicado em escala global, exige
uma coordenação que parece cada vez mais ausente. Quando potências como os
Estados Unidos decidem investir massivamente em seus próprios parques
industriais (em nome da segurança nacional), o Brasil corre o risco de ser
empurrado para a periferia, servindo como mero fornecedor de recursos brutos,
enquanto a tecnologia e o capital — os verdadeiros motores do desenvolvimento —
são concentrados no Norte global.
A lição que extraio da abordagem de Yellen, e que o Brasil deveria
considerar com urgência, é a seguinte: o Estado possui um dever inegável no
combate à pobreza, mas essa intervenção precisa ser sustentável. Não há
"estímulo" que sobreviva por muito tempo a um déficit de
credibilidade.
Se, como Yellen sugere, devemos ser capazes de
reconhecer quando os mercados falham, devemos ter, com igual humildade, a
coragem de reconhecer quando as nossas próprias políticas públicas fracassam
por excesso de ideologia e carência de pragmatismo. O Brasil não pode se dar ao
luxo de ser "keynesiano até a medula" se essa medula estiver
desprovida de uma estrutura produtiva robusta e de uma estabilidade fiscal
inegociável.
O futuro não premiará apenas aqueles que desejam
corrigir os mercados, mas aqueles que conseguirem criar as condições para que o
mercado, incentivado pelo Estado, seja capaz de gerar a riqueza necessária para
sustentar a justiça social que almejamos. Sem isso, corremos o risco de repetir
ciclos de crise, cada vez mais profundos, num mundo que não perdoa mais os
erros de cálculo das nações que ousam, mas que não se planejam.
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