A Arquitetura do Conflito: O Custo da Hegemonia em Tempos de Incerteza
Por Gabriel
de Athayde Macabeu Klein
A
história, tal como a física, é regida por leis de conservação. Em nossos
laboratórios em Los Alamos, aprendemos que a energia não pode ser criada ou
destruída, apenas transformada. Hoje, ao observar o tabuleiro geopolítico e as
declarações da Secretária do Tesouro, Janet Yellen, vejo um fenômeno análogo na
economia global: a tentativa de transmutar a capacidade industrial e o capital
financeiro em poder político e militar simultâneo em múltiplas frentes.
A
assertiva de Yellen de que os Estados Unidos possuem a robustez necessária para
sustentar, de forma concomitante, os esforços bélicos em Israel e na Ucrânia é
uma proposição que exige um escrutínio que vai além dos balanços contábeis. É,
em última análise, um teste de estresse sobre a própria definição de
"capacidade" em uma economia pós-globalização, caracterizada por
cadeias de suprimentos fragmentadas e uma inflação cujas cicatrizes ainda não
se fecharam.
Do ponto de vista puramente econômico, a capacidade de financiar conflitos de alta intensidade em dois teatros de operações distintos pressupõe uma elasticidade na produção de defesa que não se ajusta prontamente às flutuações da demanda. A economia de guerra moderna não é apenas uma questão de alocação orçamentária; é uma questão de infraestrutura produtiva. Quando o Tesouro afirma que "podemos e devemos" arcar com estes custos, ignora-se o custo de oportunidade inerente: o desvio de capital, talentos e matérias-primas que, de outra forma, seriam direcionados para a inovação tecnológica ou para a mitigação das vulnerabilidades estruturais domésticas.
O perigo
reside na ilusão da onipotência fiscal. Se a teoria econômica nos ensinou algo
através das grandes crises do século XX, é que a alavancagem excessiva — seja ela
militar ou financeira — atinge um ponto de inflexão onde os retornos
decrescentes se tornam catastróficos. O apoio simultâneo a Israel e à Ucrânia
não é apenas uma decisão de política externa; é um ato de engenharia
macroeconômica que coloca à prova a resiliência do dólar e a confiança dos
mercados na sustentabilidade da dívida americana.
Quanto à
advertência dirigida ao Irão, observo com uma inquietação familiar a crescente
dependência das sanções econômicas como o instrumento preferencial de coerção.
No campo da física, descobrimos que uma força desencadeada sem controle pode
alterar para sempre o ambiente ao seu redor. Ao declarar que "nada está
fora de questão" em termos de represálias, o Tesouro utiliza o sistema
financeiro global como uma extensão do arsenal militar.
Embora o
uso de sanções possa parecer uma alternativa mais "limpa" ao conflito
armado, ele atua, na prática, como uma erosão silenciosa do sistema financeiro
internacional que a própria América ajudou a construir. O isolamento de atores
estatais cria um incentivo poderoso para a criação de sistemas paralelos,
fragmentando a ordem econômica global. A história nos mostra que, ao tornar a
economia uma arma, arriscamos transformar a interdependência — que deveria ser
o maior garante da paz — em um foco de instabilidade permanente.
A responsabilidade daqueles que gerem as finanças de uma superpotência é comparável à responsabilidade dos físicos que compreendem as forças fundamentais da natureza: o conhecimento da nossa força não deve obscurecer o entendimento das consequências de sua aplicação.
Se os
Estados Unidos se comprometem a ser o fiador da ordem internacional através do
financiamento ininterrupto de múltiplos conflitos, devem fazê-lo com a
consciência de que a economia, assim como a matéria, possui limites de
saturação. A busca pela hegemonia, quando desenfreada, corre o risco de
consumir os próprios fundamentos — a estabilidade fiscal e a credibilidade
institucional — que lhe conferem autoridade. A pergunta que resta, e que espero
que os formuladores de políticas se façam com seriedade, é se este custo é
sustentável ou se estamos, inadvertidamente, iniciando uma reação em cadeia
cujas consequências finais ainda não podemos prever.
O autor é
um observador constante das interseções entre o poder, a tecnologia e as
fragilidades das civilizações.
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