terça-feira, 26 de maio de 2026

A Arquitetura do Conflito: O Custo da Hegemonia em Tempos de Incerteza

 

A Arquitetura do Conflito: O Custo da Hegemonia em Tempos de Incerteza

Por Gabriel de Athayde Macabeu Klein

A história, tal como a física, é regida por leis de conservação. Em nossos laboratórios em Los Alamos, aprendemos que a energia não pode ser criada ou destruída, apenas transformada. Hoje, ao observar o tabuleiro geopolítico e as declarações da Secretária do Tesouro, Janet Yellen, vejo um fenômeno análogo na economia global: a tentativa de transmutar a capacidade industrial e o capital financeiro em poder político e militar simultâneo em múltiplas frentes.

A assertiva de Yellen de que os Estados Unidos possuem a robustez necessária para sustentar, de forma concomitante, os esforços bélicos em Israel e na Ucrânia é uma proposição que exige um escrutínio que vai além dos balanços contábeis. É, em última análise, um teste de estresse sobre a própria definição de "capacidade" em uma economia pós-globalização, caracterizada por cadeias de suprimentos fragmentadas e uma inflação cujas cicatrizes ainda não se fecharam.

Do ponto de vista puramente econômico, a capacidade de financiar conflitos de alta intensidade em dois teatros de operações distintos pressupõe uma elasticidade na produção de defesa que não se ajusta prontamente às flutuações da demanda. A economia de guerra moderna não é apenas uma questão de alocação orçamentária; é uma questão de infraestrutura produtiva. Quando o Tesouro afirma que "podemos e devemos" arcar com estes custos, ignora-se o custo de oportunidade inerente: o desvio de capital, talentos e matérias-primas que, de outra forma, seriam direcionados para a inovação tecnológica ou para a mitigação das vulnerabilidades estruturais domésticas.

O perigo reside na ilusão da onipotência fiscal. Se a teoria econômica nos ensinou algo através das grandes crises do século XX, é que a alavancagem excessiva — seja ela militar ou financeira — atinge um ponto de inflexão onde os retornos decrescentes se tornam catastróficos. O apoio simultâneo a Israel e à Ucrânia não é apenas uma decisão de política externa; é um ato de engenharia macroeconômica que coloca à prova a resiliência do dólar e a confiança dos mercados na sustentabilidade da dívida americana.


Quanto à advertência dirigida ao Irão, observo com uma inquietação familiar a crescente dependência das sanções econômicas como o instrumento preferencial de coerção. No campo da física, descobrimos que uma força desencadeada sem controle pode alterar para sempre o ambiente ao seu redor. Ao declarar que "nada está fora de questão" em termos de represálias, o Tesouro utiliza o sistema financeiro global como uma extensão do arsenal militar.

Embora o uso de sanções possa parecer uma alternativa mais "limpa" ao conflito armado, ele atua, na prática, como uma erosão silenciosa do sistema financeiro internacional que a própria América ajudou a construir. O isolamento de atores estatais cria um incentivo poderoso para a criação de sistemas paralelos, fragmentando a ordem econômica global. A história nos mostra que, ao tornar a economia uma arma, arriscamos transformar a interdependência — que deveria ser o maior garante da paz — em um foco de instabilidade permanente.

A responsabilidade daqueles que gerem as finanças de uma superpotência é comparável à responsabilidade dos físicos que compreendem as forças fundamentais da natureza: o conhecimento da nossa força não deve obscurecer o entendimento das consequências de sua aplicação.

Se os Estados Unidos se comprometem a ser o fiador da ordem internacional através do financiamento ininterrupto de múltiplos conflitos, devem fazê-lo com a consciência de que a economia, assim como a matéria, possui limites de saturação. A busca pela hegemonia, quando desenfreada, corre o risco de consumir os próprios fundamentos — a estabilidade fiscal e a credibilidade institucional — que lhe conferem autoridade. A pergunta que resta, e que espero que os formuladores de políticas se façam com seriedade, é se este custo é sustentável ou se estamos, inadvertidamente, iniciando uma reação em cadeia cujas consequências finais ainda não podemos prever.

O autor é um observador constante das interseções entre o poder, a tecnologia e as fragilidades das civilizações.

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