Versos de Amanhecer
O galo cantou no telhado,
(Ou seria um despertador?).
Levantei-me meio encabulado,
Buscando a inspiração e o amor.
Mas o amor hoje não quer nada,
Prefere dormir até mais tarde.
A minha alma, bem desbotada,
Boceja e diz que a vida é umarde.
Abro a janela, vejo o dia:
O sol nasce meio preguiçoso,
Enquanto eu, com muita valentia,
Procuro um café gostoso.
Poesia? Só se for no pão com manteiga,
Ou no jornal que traz a fofoca.
A aurora vem mansa eiga-beiga,
E a minha paciência é pouca.
Paciência... que bela palavra
Para quem só quer voltar pra cama.
Adeus, alvorada brava!
O meu travesseiro é quem me ama.
Caminho do Café
Vão os dois pelo atalho
Sob o sol que já incendeia.
Ele, da cor do carvão e do talho,
Eu, com a alma na areia.
No meio do cafezal denso,
Onde a folha verde abafa,
O silêncio é grave e intenso,
Longe do mundo e da gafe.
A boca procura a ternura
No corpo moreno e forte.
Entre a folhagem escura,
Encontramos a nossa sorte.
Bebo o gosto daquela entrega,
Doce e quente como a aurora.
O preconceito se esfuma e cega,
E o tempo vai embora.
Sou feliz nessa carícia,
Neste amor que não se esconde.
Bela e simples delícia,
Sem saber o mundo aonde.
Rebelião de amor
Entre o verde escuro do cafezal,
Nossa boca se encontrou, total.
Doce seiva que bebi,
Nesse amor que nunca vi.
Sob o sol da manhã, a sós,
O corpo dele, a paz em nós.
Chupo a flor do seu desejo,
Nesse gozo, num só beijo.
Longe dos olhos da cidade,
A nossa doce intimidade.
Bebo a vida em seu sabor,
Sem pecado, só amor.
Cafezal, orvalho e sol.
Teu corpo, meu doce lençol.
Bebo a lua em tua pele,
A felicidade se rebela.
Eclipse
O mundo se apaga.
Só existe o cheiro de flor e mar
da tua pele, negríssima e quente.
O teu corpo, uma arquitectura de desejo,
repousa em mim.
A curva da tua nádega,
o peso doce e suave,
é o meu descanso, o meu refúgio.
Sinto o teu sorriso na minha nuca,
uma vibração morna e boa,
que me diz: "eu também".
E o meu coração... ah, o meu coração!
Ele não é mais um músculo,
um batimento, uma coisa.
Ele vira a lua, inteira e luminosa,
no céu da minha boca,
a transbordar de uma alegria redonda e cheia.
Um eclipse perfeito.
Luz e sombra,
tudo em seu lugar,
neste amor que não pede licença,
que se basta a si mesmo,
neste eclipse de ternura e prazer.
Mariposa
Entrou pela janela.
Escura e bela.
Toda veludo e mistério.
A travesti.
Pousou na luz
E se fez estrela
Em meu quarto.
Bela, tão bela.
Moça do Recife em São Paulo
Veio do Recife, de caldeirão de sol e maresia,
trazendo o corpo leve e a fala de açúcar e brisa.
São Paulo a recebeu de chumbo e cinza,
de ventos frios cortando a Praça da Sé.
Ela andou pelos viadutos, estranha e solitária,
pisando o asfalto duro que não canta.
Sentiu a saudade dos arrecifes, da mangueira farta,
na imensidão de uma metrópole que espanta.
Mas a cidade grande, de repente, se desmancha.
Na esquina cinzenta, um olhar cruzado.
Um toque de mãos, o tempo que se empanca,
e o amor brota forte, inesperado e sagrado.
Agora o Recife mora dentro dos olhos dele,
e São Paulo já não é tão fria ou distante.
O coração dela encontrou pouso e pele,
e a vida recomeça, doce e cantante.
A Esquina em Vermelho
A esquina, úmida de noite e de cinza,
abre sua boca de asfalto e neon.
O jovem, estaca no meio-fio,
a alma em brasa sob o frio.
Lá está ela, no vértice do mundo,
uma fera mansa na coleira da noite.
Vestida de um vermelho que grita,
que corta o escuro, que é carne e paixão.
O olhar do jovem, tateia o escarlate.
Não é pecado, nem blasfêmia.
É um espanto morno, um reconhecimento.
O corpo nu, sob o pano exíguo,
é uma arquitetura de mistério.
Onde a pele, de um âmbar profundo,
encontra a sombra e a luz do poste.
A forma nua, uma verdade nua.
Um segundo de suspenso no trânsito.
O coração do jovem, um tambor surdo.
Uma beleza outra, uma mulher outra.
Na esquina, em vermelho, a vida se apossa.
O ônibus passa, quebrando o feitiço.
O jovem segue, a retina queimando,
com a imagem daquele corpo, daquela cor,
guardada no peito, como um segredo sagrado.
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma Faby
tinha uma Faby no meio do caminho
tinha uma Faby
cor de ouro negro
no meio do caminho
tinha uma Faby.
Campinas: Triste e Bela!
Campinas de brumas, de trilhos antigos,
de ingás que guardam segredos de outrora.
A cidade estende seus braços de asfalto
sob um céu que chora em silêncio.
Há uma beleza grave em suas praças,
na folha seca que dança na calçada,
no verde antigo que resiste ao tempo
com a altivez de quem já foi império.
Não é a alegria barulhenta das praias,
é um pulso lento, um sopro de poeira
que abraça a tarde que se despede fria.
Cidade dos ventos, dos portais cerrados,
tua tristeza tem a graça de um poema:
bonita na dor, eterna na penumbra.
AS NÁDEGAS DO NEGRO
No cubículo estreito, o mundo fora:
o barulho abafado, a festa, o fuzuê.
Entre o espelho embaçado e a porta que chora,
o corpo dele, noite, brasa e cetim, a me prender.
Curvo-me à sua penumbra, ao dorso forte
que a luz do banheiro revela em segredo.
Um beijo de assombro, de graça e de sorte,
na pele de ônix, sem culpa ou medo.
O gosto da noite, o calor da espessura,
o mundo encolhido naquele segundo.
Naquele recanto de pura loucura,
beijei o mistério mais lindo do mundo.
Corpo em corpo
No calor abafado, o corpo de brasa,
o jovem negro a me pedir mais.
A boca rendida, o gosto de casa,
e a mão nas nádegas, firmes e iguais.
O pedido sussurrado, a ânsia de ver,
o prazer subindo em ondas de mar.
Eu babo a carne, aprendendo a viver,
amando cada curva que o faz delirar.
Sorriso sol
Na sombra macia do recanto escuro,
onde o mundo de fora silencia e esquece,
nossos lábios se buscaram com o tato puro,
no segredo que a noite abriga e tece.
O homem trans, de carne e auroras,
tinha nos olhos o brilho de um farol.
E o beijo, que durou eras e horas,
despertou em nós a força de um sol.
Depois, o sorriso. Aquele sorriso aberto,
que iluminou a penumbra do lugar.
E eu soube, ali, naquele instante certo,
que a vida é bela quando a alma ousa amar.
Ressurreição
O espanto primeiro, a gota espessa,
branca e viva, nascida do mistério.
A luz cortando a treva e a pressa,
revelando o segredo do corpo sério.
Vi o pulsar, a seiva da beleza,
o milagre menor que o mundo esconde.
E me apaixonei, com toda a certeza,
por essa curva onde a alma se responde.
Uma borboleta negra
Pela fresta da veneziana, o dia escorre
O café esfria na xícara de porcelana
Na sala estreita, o homem medita e corre
Atrás do passo dela que já vem de semana.
Ela trabalha no centro, entre pastas e planos,
Cruzando a cidade num bonde que vai cheio de anos.
No jardim lá fora, onde a grama verde descansa,
Um risco escuro corta a luz da manhã:
É uma borboleta negra, de asa mansa,
Que pousa na rosa vermelha e afã.
Não tem o colorido que a infância inventa,
Mas traz um silêncio que o peito arrebenta.
Ele pensa no vestido que ela traz no corpo,
No cansaço leve que habita o seu olhar,
No modo como ela carrega o porto
De quem sabe a hora exata de voltar.
Mas vê a borboleta negra e sobressalta:
O que será que no meu jardim falta?
Será presságio, será só bicho da terra,
Que veio do mato escuro ver a nossa dor?
Ou é a cidade que a gente carrega e cerra
Dentro do peito, feito um velho rancor?
A borboleta abre a capa de veludo,
E o homem, calado, pensa em tudo.
Pensa no salário que mal dá pra o mês,
No asfalto quente, no ônibus lotado,
No que ela sonhou ser quando era pequenês
E no que a vida deixou de lado.
Ela vem vindo pela calçada cinzenta,
Enquanto a borboleta negra se alimenta.
Abre-se o portão. É o barulho da chave.
O homem levanta, o coração bate apressado.
A borboleta levanta voo, leve e grave,
Sumiu no azul que já está nublado.
Ela entra em casa, traz o trabalho no rosto:
— Meu amor, o dia hoje foi um desgosto...
Ele a abraça forte, beija-lhe a testa,
E olha lá fora, pro jardim sem cor.
A borboleta se foi, mas na alma resta
O voo escuro do nosso amor.
Os olhos verdes de uma moça
Ela trazia nos olhos uma calma funda,
Um verde de alga, lagoa mansa,
Onde a gente mergulhava, sem ter baliza,
E se perdia, confiante na criança.
Eram olhos de vidro, de floresta em sesta,
A joia mais rara da nossa modesta festa.
Mas bastava a lua virar a esquina,
E a sombra da noite riscar o chão,
Para a íris se abrir, qual serpente minina,
Num bote certeiro do coração.
O verde mudava, ficava felino,
E o doce olhar se tornava um destino.
A pele de seda, alva e donzela,
Rachava em escamas, num som seco e triste,
E a moça bonita, tão terna e bela,
Cumpria o pacto que a natureza resiste.
Virava serpente, rainha do abismo,
Trocando o carinho pelo canibalismo.
E a cobra, rainha, com seu olhar de veneno,
Não buscava a terra, não queria o chão.
Seu apetite era vasto, imenso, sereno,
Mirava o oceano, em fúria e expansão.
Abriu a boca imensa, que o mundo engole,
E num só gole, bebeu o mar, sem controle.
Devorou as ondas, o sal, a espuma,
As caravelas, os peixes, o coral profundo,
A imensidão azul virou fumaça e bruma,
Num banquete atroz, o fim deste mundo.
O mar, que era eterno, virou seu jantar,
E a cobra, satisfeita, no vazio a boiar.
Agora restam apenas aqueles olhos acesos,
O verde gelado, pairando no nada.
Devorou o oceano, mas ficou presa aos versos,
Desta história cruel, que não foi contada.
Olhos de cobra, de mar, de mistério,
Guardando a vastidão dentro de um cemitério.
A existência
A existência é esse mar
Que vem, que vai, que já foi
É um barco a navegar
Entre o agora e o depois
O tempo passa na areia
A onda beija e incendeia
O peito de quem marcou
No azul do fundo do olho
O brilho de um vermelho
De um sol que já se deitou.
O que foi já não é mais
Mas continua a cantar
Nos ecos dos litorais
Que a gente insiste em habitar
E a vida é essa vaga funda
Que nos leva e nos afunda
Numa doce claridade
Ser é um barco à deriva
No vento que nos cultiva
Em plena imensidão da idade.
Vem a espuma, vai a brisa
Tudo é nada, tudo é tanto
O que a alma precisa
É transformar tudo em canto
O mar bate na rocheira
E a gente nessa beira
Sem saber para onde ir
Apenas sendo e vivendo
O tempo que vai correndo
E nos fazendo sorrir.
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