quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Mundo onírico

                 A brisa que descia das montanhas trazia consigo o aroma de pinheiros e o eco distante do mar que há muito aprendera a temer. Lanus estava sentado à entrada de sua tenda de lona, ​​o olhar fixo na linha onde a floresta vermelha encontrava o horizonte. Ele não era apenas um elfo; era o peso das eras, o homem — se é que se podia chamar de homem um homem com a eternidade nos olhos — que trouxera luz a um mundo à beira do crepúsculo.Houve um tempo em que os mapas terminavam onde o medo começava. Lanus se lembrava do gosto de sal e cinzas em seus lábios quando seu pequeno navio, com a quilha fina como a lua minguante, foi engolido pelas águas do Mar de Ferro. Não havia estrelas no céu; apenas o vermelho febril de antigas tempestades que pareciam respirar. Nas profundezas desse abismo de lava, erguia-se a Serpente Vermelha, um gigante com escamas como brasas incandescentes e olhos que carregavam o ressentimento do mundo primordial. A batalha não durara alguns dias, mas séculos se condensaram na carnificina de um único coração. Quando uma mandíbula flamejante se abriu para engoli-lo, Lanus não hesitou. Ele enfiou a mão no pescoço ardente do monstro, suportando a dor que derretia o aço, tateando até encontrar o aperto gélido. De lá, ele desembainhou a Espada do Gigante, forjada nas profundezas da terra antes mesmo que as primeiras canções fossem entoadas. Com ela, cortou a noite, e o monstro afundou em silêncio eterno, deixando para trás um mar repentinamente calmo banhado por uma pálida aurora. Mas as marés o levaram para longe, além do alcance dos mapas, até a Ilha Esquecida. Lá, o tempo parecia parar. Entre as margens de um riacho onde a água cantava canções que curavam a alma, ele a encontrou: Minela, Filha do Rio. Seus cabelos brilhavam prateados como espuma ao luar, e seus olhos refletiam as profundezas límpidas e indomáveis ​​da fonte do mundo. Lanus não precisava falar de batalha; A espada em seu quadril tremia em harmonia com a quietude daquele lugar. E Minela, que jamais sentira o peso da terra firme, decidiu seguir o solitário marinheiro. Deixou as margens de água doce para caminhar com ele sobre as folhas secas do outono que se aproximava. Quando desembarcaram nas costas desconhecidas do continente setentrional, o reino não tinha nome. Mas onde Minela pisava, a grama crescia verde, e onde Lanus fincava a lâmina da Espada Gigante no chão, erguiam-se muros de pedra branca, como se a própria terra se protegesse do esquecimento. Ali, sob as copas das árvores que pareciam tocar o teto do mundo, nasceu o reino dos elfos. Lanus e Minela governavam não com cetros de ferro, mas com a serenidade necessária para conquistar a noite. E ainda hoje, quando o vento sopra forte do sul e as crianças fadas correm pelas margens de rios cristalinos, os antigos poetas contam como a espada gigante ainda repousa no grande palácio, brilhando com o fogo do mar e a pureza do amor que desafiou o abismo.

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