terça-feira, 11 de agosto de 2026

POESIAS VAZIAS -

 




O ÚLTIMO DESESPERO
O lábio         costurado ao verso:
não podemos reclamar.
O mercúrio         descendo a garganta,
pesado, mudo, cego:
não podemos reclamar.
A parede de cal consumindo os olhos,
o teto despencando em lâminas:
não podemos reclamar.

Um relógio         sem ponteiros
bate contra a têmpora do nada.

O que estamos esperando?
O ferro         que ainda não ardeu?
O silêncio descer do teto
e morder a         última palavra?




CACTOS NUAS
Uma palma seca contra o nada,
o estalo que corta o ar de giz.
Gotas de cobras 
a fome mastiga a própria sombra
no fundo da garganta.

Estou chegando perto.
O passo afunda na escama,
o veneno ferve na sola do tempo
e o silêncio abre o bote.



POESIAS VAZIAS OU O ELO DO CACTO
O cacto estala         entre os dentes do dia,
verde de ferro e agulha,
crocante como a cinza que o vento mastiga.

Uma palma seca bate contra o vazio,
o som de um osso que racha no escuro.
Talvez 
um resto de luz colado à têmpora,
o nada aplaudindo o próprio pulso
enquanto a carne morde     a casca.



PALPITE SÓ 
O banho         de ferro e brasas,
a água cravada como 
agulhas na têmpora do mundo.
O corpo  esse cacto         de sal e espasmo 
arqueia-se contra o teto de giz.

                A vertigem desaba,
o nada estala na língua,
e o gozo                     é um tiro de escuro
rasgando o silêncio                     do nada.




ERA NIILISTA

Era niilista,

e do sofrimento que acompanha o niilismo,

eu fiz uma morada sem janelas.


Onde a poeira assenta

sobre as coisas que nunca tiveram nome,

e o tempo não passa,

apenas pesa.


Vazias são as ruas

por onde os deuses passaram

e esqueceram de deixar pegadas.

Nenhum eco responde ao chamado.

Apenas o vento gélido

que sopra do nada para lugar nenhum,

lembrando-me do pó

que habita o fundo dos meus olhos.

E, no entanto,

ainda há uma sede antiga

que rasga a garganta:

a dor de saber

que até o nada

exige de nós

uma

resposta.



O PIOR DIA

Hoje é o pior dia, 

o dia que traiu

uma clareza desesperada 

que se estilhaçou.

Ele era um niilista,

e do sofrimento que acompanha o niilismo,

criei uma geografia de cinzas e raízes,

um rastro de ferro cego que leva ao nada.


Os ventos espreitantes 

não devem saber: 

tudo permaneceu entre as fauces 

da terra e meu coração amargo. 


Vivi na imensidão do nada 

como alguém que habita

 uma casa sem portas, 

onde os deuses definharam

 em altares antigos e o sol não passa

 de metal que queima, mas não brilha. 


A noite inteira se queimou 

em minhas costelas, 

o grande cansaço de saber 

que o nada tem raízes, 


que o vazio pulsa como um pulso de sangue escuro,

 e que até mesmo a nossa sombra exige uma resposta pétrea.

 Mas veja: aqui estou eu, 

com as mãos cheias de pão e cinzas,

 amando o fardo inútil do mundo,

 enquanto a chuva oblíqua cai sobre meu 

canto teimoso e o sofrimento,

 esse cão fiel, jaz ao meu lado

 e morde a orelha do silêncio.



Banho de Ferro 

Eu quero tomar banho de água tão dura,

uma água que não molha, que corta,

que desce pelas costas como uma lâmina fria

e deixa a pele cinzenta de estilhaços.


Água de pedra, de poço cego,

de raiz morta que bate no peito.

Quero que o peso do mundo escorra em agulhas,

que a dureza do dia entre pelos poros

e me faça estátua,

seca e inteira,

no fundo da tarde que não acaba.




O Frasco e o Clamor

O shampoo arde nos olhos como uma salmoura,

derrama-se espesso, branco e cego

pela carne que treme no azulejo frio.

Goza a         noite, goza o ferro da garganta,

oh porra, que o frasco estilhaça

na vertigem do corpo que desaba,

enquanto a espuma grossa e amarga

soterra o último grito.



Cactos de Fogo e Mel

Os cactos duros das travestis

cortam         o ar com espinhos de prata e silêncio,

enquanto pulsam na carne a viscosidade do prazer eterno,

um sumo espesso que brota da terra seca

e banha as feridas do mundo.


            Tudo arde na espinha da noite:

o suor, o metal, a seiva sagrada,

o gozo que não pede perdão aos deuses

e faz da dor um altar de fogo.



Cobras de Orvalho e Sombra

Cobras duras         pendem viscosas

do teto de musgo e silêncio,

tecendo com o corpo a espiral do tempo

que não cede aos homens.


A casa é de um         verde antigo,

quase ferro,

onde o sopro da noite escorre

pela escama fria da terra.


Ninguém passa         por este umbral

sem que o pulso do mundo

morda o centro da carne

e deixe o seu rastro de limo.




Rainha do Limo e do Gume

Goza o prazer das             cobras viscosas     em minha boca,

rainha do gozo,

onde o silêncio         se faz carne

e o mel amargo         desce sem pressa.

Na câmara escura dos dias,

a tua língua         é raiz e gume,

um corte preciso que abre a terra

e bebe o sumo da noite.

Nenhuma         palavra sobrevive a este reino:

apenas o corpo que cede,

a escama que treme,

e a soberana umidade

que coroa         o abismo.



Rainha do gozo

Goza —

mas onde             termina a serpente

e começa a noite?


Na         boca, o silêncio

enrola seu     corpo verde,

vicioso,

como uma         palavra que ninguém ousa dizer.


Rainha         do gozo,

coroa de sombra,

tu bebes         da escuridão

e devolves ao mundo

uma língua de cinzas.


                        Há cobras no jardim.

            estrelas partidas.

E há uma             boca

guardando     o nome

daquilo que não pode ser dito.


Goza             o prazer —

não como chama,

mas como abismo:


uma coisa viva

que se fecha sobre a outra

até                 restar somente




Abismo

Goza

o prazer

das         cobras viscosas

em             minha boca

rainha

do gozo


Silêncio

            puro

na carne

seca


E             o mundo

cai.

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