ERA NIILISTA
Era niilista,
e do sofrimento que acompanha o niilismo,
eu fiz uma morada sem janelas.
Onde a poeira assenta
sobre as coisas que nunca tiveram nome,
e o tempo não passa,
apenas pesa.
Vazias são as ruas
por onde os deuses passaram
e esqueceram de deixar pegadas.
Nenhum eco responde ao chamado.
Apenas o vento gélido
que sopra do nada para lugar nenhum,
lembrando-me do pó
que habita o fundo dos meus olhos.
E, no entanto,
ainda há uma sede antiga
que rasga a garganta:
a dor de saber
que até o nada
exige de nós
uma
resposta.
O PIOR DIA
Hoje é o pior dia,
o dia que traiu
uma clareza desesperada
que se estilhaçou.
Ele era um niilista,
e do sofrimento que acompanha o niilismo,
criei uma geografia de cinzas e raízes,
um rastro de ferro cego que leva ao nada.
Os ventos espreitantes
não devem saber:
tudo permaneceu entre as fauces
da terra e meu coração amargo.
Vivi na imensidão do nada
como alguém que habita
uma casa sem portas,
onde os deuses definharam
em altares antigos e o sol não passa
de metal que queima, mas não brilha.
A noite inteira se queimou
em minhas costelas,
o grande cansaço de saber
que o nada tem raízes,
que o vazio pulsa como um pulso de sangue escuro,
e que até mesmo a nossa sombra exige uma resposta pétrea.
Mas veja: aqui estou eu,
com as mãos cheias de pão e cinzas,
amando o fardo inútil do mundo,
enquanto a chuva oblíqua cai sobre meu
canto teimoso e o sofrimento,
esse cão fiel, jaz ao meu lado
e morde a orelha do silêncio.
Banho de Ferro
Eu quero tomar banho de água tão dura,
uma água que não molha, que corta,
que desce pelas costas como uma lâmina fria
e deixa a pele cinzenta de estilhaços.
Água de pedra, de poço cego,
de raiz morta que bate no peito.
Quero que o peso do mundo escorra em agulhas,
que a dureza do dia entre pelos poros
e me faça estátua,
seca e inteira,
no fundo da tarde que não acaba.
O Frasco e o Clamor
O shampoo arde nos olhos como uma salmoura,
derrama-se espesso, branco e cego
pela carne que treme no azulejo frio.
Goza a noite, goza o ferro da garganta,
oh porra, que o frasco estilhaça
na vertigem do corpo que desaba,
enquanto a espuma grossa e amarga
soterra o último grito.
Cactos de Fogo e Mel
Os cactos duros das travestis
cortam o ar com espinhos de prata e silêncio,
enquanto pulsam na carne a viscosidade do prazer eterno,
um sumo espesso que brota da terra seca
e banha as feridas do mundo.
Tudo arde na espinha da noite:
o suor, o metal, a seiva sagrada,
o gozo que não pede perdão aos deuses
e faz da dor um altar de fogo.
Cobras de Orvalho e Sombra
Cobras duras pendem viscosas
do teto de musgo e silêncio,
tecendo com o corpo a espiral do tempo
que não cede aos homens.
A casa é de um verde antigo,
quase ferro,
onde o sopro da noite escorre
pela escama fria da terra.
Ninguém passa por este umbral
sem que o pulso do mundo
morda o centro da carne
e deixe o seu rastro de limo.
Rainha do Limo e do Gume
Goza o prazer das cobras viscosas em minha boca,
rainha do gozo,
onde o silêncio se faz carne
e o mel amargo desce sem pressa.
Na câmara escura dos dias,
a tua língua é raiz e gume,
um corte preciso que abre a terra
e bebe o sumo da noite.
Nenhuma palavra sobrevive a este reino:
apenas o corpo que cede,
a escama que treme,
e a soberana umidade
que coroa o abismo.
Rainha do gozo
Goza —
mas onde termina a serpente
e começa a noite?
Na boca, o silêncio
enrola seu corpo verde,
vicioso,
como uma palavra que ninguém ousa dizer.
Rainha do gozo,
coroa de sombra,
tu bebes da escuridão
e devolves ao mundo
uma língua de cinzas.
Há cobras no jardim.
Há estrelas partidas.
E há uma boca
guardando o nome
daquilo que não pode ser dito.
Goza o prazer —
não como chama,
mas como abismo:
uma coisa viva
que se fecha sobre a outra
até restar somente
Abismo
Goza
o prazer
das cobras viscosas
em minha boca
rainha
do gozo
Silêncio
puro
na carne
seca
E o mundo
cai.
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