quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Auto do Pretendido Menino

 

                    (Cenário rústico, inspirado no Auto da Compadecida e nos Autos de Gil Vicente. Ao centro, um presépio simples. Entram em cena o Bispo, com seu báculo e suntuosidade eclesiástica; o Judeu, com um livro antigo de capas gastas; e o Árabe, com uma bolsinha de moedas tilintando na cintura.)


Auto do Pretendido Menino


Personagens:

O Bispo:      Pomposo, dogmático e latineiro.

O Judeu:      Enigmático, recurvado, falando por enigmas talmúdicos.

O Árabe:      Pragmático, mercador astuto, de olho no lucro.



Ato Único.



O BISPO (Erguendo os braços para o céu, com voz solene): Ó, rebanho infiel e gente errada! Ajoelhai ante a luz sagrada! Este menino que aqui jaz na estrebaria É o Verbo feito carne, a pura teologia! É o Filho do Pai, Dogma e Trindade, A única porta da eterna piedade! Fora da Santa Igreja, ó dura sorte, Não há salvação, senão a eterna morte! Ajoelhai, pecadores, e beijai o chão: Eis o Rei dos Reis, a nossa redenção!


O JUDEU (Folheando páginas invisíveis, sorrindo de leve e olhando de lado): Vós falais de reis, Senhor Bispo de capa esplendente, Mas o mistério do Altíssimo não se alcança tão mente. Diz o Talmud nas sendas do tempo escondido: O Mamzer famoso, o mestre ferido... É semente de Davi que o vento espalhou, Um sopro de além que o espinheiro tocou. Nasce na palha o que a Torá velou em segredo, Nem cordeiro pascal, nem ídolo de credo. É o nó górdio da Lei, o enigma profundo: Um carpinteiro graúdo que veio desmanchar o mundo!


O ÁRABE (Aproximando-se do presépio, balançando as moedas e sorrindo maliciosamente): Ora, deixai-vos de teologias e de rabinos, Que o vento do deserto traz negócios mais finos! Um parto na palha, sem ouro nem tenda? Isso é desperdício de grande encomenda! Onde já se viu Messias sem caravana e sem feira? Se este menino trouxesse astúcia verdadeira, Já teríamos montado aqui mesmo o bazar: Venda de incenso, mirra e ouro a par! Comércio sagrado, peregrinação garantida, Pois milagre sem lucro é alma perdida!


O BISPO (Indignado): Heresia! Sacrilégio de mercador e fariseu!


O JUDEU (Rindo): Tudo é mistério que o vento escondeu...


O ÁRABE (Piscando o olho para o público): Mistério ou não, guardem minhas palavras: o turismo religioso vai render mais que mil cabras!


(Curvam-se os três em direção ao presépio, enquanto cai o pano.)

 

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