(Cenário rústico,
inspirado no Auto da Compadecida e nos Autos de Gil Vicente. Ao centro, um
presépio simples. Entram em cena o Bispo,
com seu báculo e suntuosidade eclesiástica; o Judeu, com um livro antigo de capas gastas; e o Árabe, com uma bolsinha de moedas
tilintando na cintura.)
Auto do Pretendido Menino
Personagens:
O Bispo: Pomposo, dogmático e latineiro.
O Judeu: Enigmático, recurvado, falando por enigmas talmúdicos.
O Árabe: Pragmático, mercador astuto, de olho no lucro.
Ato Único.
O BISPO (Erguendo os braços para o
céu, com voz solene): Ó, rebanho infiel e gente errada! Ajoelhai ante a
luz sagrada! Este menino que aqui jaz na estrebaria É o Verbo feito carne, a
pura teologia! É o Filho do Pai, Dogma e Trindade, A única porta da eterna
piedade! Fora da Santa Igreja, ó dura sorte, Não há salvação, senão a eterna
morte! Ajoelhai, pecadores, e beijai o chão: Eis o Rei dos Reis, a nossa
redenção!
O JUDEU (Folheando páginas invisíveis,
sorrindo de leve e olhando de lado): Vós falais de reis, Senhor Bispo de
capa esplendente, Mas o mistério do Altíssimo não se alcança tão mente. Diz o
Talmud nas sendas do tempo escondido: O Mamzer
famoso, o mestre ferido... É semente de Davi que o vento espalhou, Um sopro de
além que o espinheiro tocou. Nasce na palha o que a Torá velou em segredo, Nem
cordeiro pascal, nem ídolo de credo. É o nó górdio da Lei, o enigma profundo:
Um carpinteiro graúdo que veio desmanchar o mundo!
O ÁRABE (Aproximando-se do presépio,
balançando as moedas e sorrindo maliciosamente): Ora, deixai-vos de
teologias e de rabinos, Que o vento do deserto traz negócios mais finos! Um
parto na palha, sem ouro nem tenda? Isso é desperdício de grande encomenda!
Onde já se viu Messias sem caravana e sem feira? Se este menino trouxesse
astúcia verdadeira, Já teríamos montado aqui mesmo o bazar: Venda de incenso,
mirra e ouro a par! Comércio sagrado, peregrinação garantida, Pois milagre sem
lucro é alma perdida!
O BISPO (Indignado): Heresia!
Sacrilégio de mercador e fariseu!
O JUDEU (Rindo): Tudo é
mistério que o vento escondeu...
O ÁRABE (Piscando o olho para o
público): Mistério ou não, guardem minhas palavras: o turismo religioso
vai render mais que mil cabras!
(Curvam-se os três em
direção ao presépio, enquanto cai o pano.)
Nenhum comentário:
Postar um comentário