quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A Cabeça Falante e o Ofício Suspenso - conto d' realismo fantástico

                 A oficina cheirava a pó de gesso velho, cola de sapateiro e àquela melancolia denota das tardes adamantinenses com um sorriso amarelo. Mas a atmosfera, ah, essa tinha o torvelinho cronóforo da vida: os ponteiros do relógio na parede pareciam esticar-se como chicletes, e o pó de gesso, ao cair, nunca chegava ao chão de uma vez só, flutuando em suspensões geométricas que desafiavam a gravidade.

        Josias lixava a bochecha de São Jerônimo. Era uma obra de encomenda para a paróquia do bairro, um barroco modesto, nordestino por herança emocional, mas plantado no asfalto frio do Sul. Faltava apenas dar o polimento final no nariz aquilino quando a cabeça, ainda separada do corpo de arame e estopa, mexeu a pálpebra de gesso craquelado.

    — Sabe, Josias — disse a cabeça, com uma voz que parecia rolar dentro de um pote de cerâmica oca —, você tem uma péssima mania de endeusar o que já nasceu poeira.

                Josias largou a lixa. Não gritou. No universo onde as pessoas simples cruzam olhares na esquina da Rua da Praia com a Avenida Corrientes, coisas absurdas acontecem com a naturalidade de quem perde o ônibus das seis. O escultor limpou as mãos no avental engordurado e encarou o objeto.

    — É o verniz — balbuciou Josias, buscando uma racionalidade burocrática bem ao estilo de um funcionário público melancólico. — O solvente forte sempre causa alucinações olfativas.

        — Não venha com subterfúgios de almanaque, Josias — replicou o santo, cujos olhos de vidro pintados a óleo brilhavam com uma ironia muito contemporânea. — Sou eu, Jerônimo, ou o que restou de mim nesta projeção tridimensional que você insiste em modelar. E quer saber de uma coisa? Estou farto.

    — Farto? Mas demorei três dias para acertar a curva desta orelha! — protestou o escultor, ofendido em seu brio artesanal.

        — De orelhas o mundo está cheio, Josias. O que faltam são pernas — disse a cabeça, inflando as bochechas de gesso como se respirasse pela primeira vez em séculos. — Ficar aqui em cima da bancada, com essa auréola de folha de ouro falsa que você comprou na lojinha do armênio, é de uma inutilidade metafísica exasperante. Chega de imagens estáticas. O sagrado não cabe na redoma do seu atelier.

                        Josias sentiu um calafrio na espinha.

— E o que você sugere que eu faça? Fechei contrato com o padre para entregar o santo na sexta-feira. Tem sinal adiantado e tudo....

        A cabeça de São Jerônimo suspirou, levantando uma micro-nuvem de gesso branco.

        — Quebre o molde, homem! Pegue esse martelo, desça a escadaria e vá ali na Praça da Matriz. Tem uma fila de gente dormindo ao relento sob o viaduto, com frio nas juntas e a barriga colada nas costas. Eles não precisam de um Jerônimo de gesso para olhar para o teto; eles precisam de sopa quente e de alguém que os olhe nos olhos.

    Josias olhou para o martelo de borracha na bancada. Olhou para a cabeça expressiva, que agora piscava o olho esquerdo com uma cumplicidade desconcertante.

        O tempo parou por um segundo — aquele segundo típico em que uma mosca suspende o voo no meio da sala. Depois, com um movimento seco, Josias pegou a cabeça debaixo do braço, como quem carrega uma melancia pesada e insólita, tirou o avental e caminhou em direção à porta.

        Lá fora, a cidade continuava indiferente, mas na sua axila o santo resmungava:

     — Isso, garoto. E trate de comprar dois quilos de batatas no caminho.

 

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