A oficina cheirava a pó de gesso velho, cola de sapateiro e àquela melancolia denota das tardes adamantinenses com um sorriso amarelo. Mas a atmosfera, ah, essa tinha o torvelinho cronóforo da vida: os ponteiros do relógio na parede pareciam esticar-se como chicletes, e o pó de gesso, ao cair, nunca chegava ao chão de uma vez só, flutuando em suspensões geométricas que desafiavam a gravidade.
Josias lixava a bochecha
de São Jerônimo. Era uma obra de encomenda para a paróquia do bairro, um
barroco modesto, nordestino por herança emocional, mas plantado no asfalto frio
do Sul. Faltava apenas dar o polimento final no nariz aquilino quando a cabeça,
ainda separada do corpo de arame e estopa, mexeu a pálpebra de gesso
craquelado.
— Sabe, Josias —
disse a cabeça, com uma voz que parecia rolar dentro de um pote de cerâmica oca
—, você tem uma péssima mania de endeusar o que já nasceu poeira.
Josias largou a lixa.
Não gritou. No universo onde as pessoas simples cruzam olhares na esquina da Rua
da Praia com a Avenida Corrientes, coisas absurdas acontecem com a naturalidade
de quem perde o ônibus das seis. O escultor limpou as mãos no avental
engordurado e encarou o objeto.
— É o verniz —
balbuciou Josias, buscando uma racionalidade burocrática bem ao estilo de um
funcionário público melancólico. — O solvente forte sempre causa alucinações
olfativas.
— Não venha com
subterfúgios de almanaque, Josias — replicou o santo, cujos olhos de vidro
pintados a óleo brilhavam com uma ironia muito contemporânea. — Sou eu,
Jerônimo, ou o que restou de mim nesta projeção tridimensional que você insiste
em modelar. E quer saber de uma coisa? Estou farto.
— Farto? Mas demorei
três dias para acertar a curva desta orelha! — protestou o escultor, ofendido
em seu brio artesanal.
— De orelhas o mundo
está cheio, Josias. O que faltam são pernas — disse a cabeça, inflando as
bochechas de gesso como se respirasse pela primeira vez em séculos. — Ficar
aqui em cima da bancada, com essa auréola de folha de ouro falsa que você
comprou na lojinha do armênio, é de uma inutilidade metafísica exasperante.
Chega de imagens estáticas. O sagrado não cabe na redoma do seu atelier.
Josias sentiu um
calafrio na espinha.
— E o que você
sugere que eu faça? Fechei contrato com o padre para entregar o santo na
sexta-feira. Tem sinal adiantado e tudo....
A cabeça de São
Jerônimo suspirou, levantando uma micro-nuvem de gesso branco.
— Quebre o molde,
homem! Pegue esse martelo, desça a escadaria e vá ali na Praça da Matriz. Tem
uma fila de gente dormindo ao relento sob o viaduto, com frio nas juntas e a
barriga colada nas costas. Eles não precisam de um Jerônimo de gesso para olhar
para o teto; eles precisam de sopa quente e de alguém que os olhe nos olhos.
Josias olhou para o
martelo de borracha na bancada. Olhou para a cabeça expressiva, que agora
piscava o olho esquerdo com uma cumplicidade desconcertante.
O tempo parou por um
segundo — aquele segundo típico em que uma mosca suspende o voo no
meio da sala. Depois, com um movimento seco, Josias pegou a cabeça debaixo do
braço, como quem carrega uma melancia pesada e insólita, tirou o avental e caminhou
em direção à porta.
Lá fora, a cidade continuava indiferente, mas na sua axila o santo resmungava:
— Isso, garoto. E
trate de comprar dois quilos de batatas no caminho.
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