Meu caro,
Essa provocação de Fernando Jorge sobre a nossa
culta e sobeja Academia Brasileira de Letras toca em uma ferida antiga,
daquelas que a gente esconde sob o casimiro fino e o verniz dos salões
cariocas. O querido Fernando, com seu lápis afiado de cronista indignado,
aponta o dedo para o que há de mais aristocrático e, por que não dizer, de mais
carcomido em nossas formas de sociabilidade intelectual: o fardão como enfeite
de vaidades e o silêncio cúmodor dos que preferem o chá das cinco à têmpera da
história.
Gilberto Freyre, se estivesse aqui a prosear com
vocês à sombra de um manguezal ou na varanda de um engenho pernambucano, diria
que a nossa Academia nunca deixou de ser um espelho da nossa formação
patriarcal e de nossas heranças coloniais. O Brasil sempre teve essa mania
elegante de enfeitar o poder e o prestígio social com a caspa da erudição de
encomenda. O acadêmico de ocasião, aquele que produz um livrinho apenas para passar
pelo buraco da agulha e vestir a farda bordada a ouro, é o legítimo herdeiro do
bacharelismo de faculdade. É o homem letrado não pela paixão da palavra, mas
pelo apetite do status. Para ele, a literatura não é carne viva ou dor social;
é um colar de ouro para adornar o pescoço da respeitabilidade burguesa.
E quanto ao silêncio da Casa de Machado de Assis
diante dos porões da censura — seja nos tempos bravios do Estado Novo de
Vargas, seja sob a bota de ferro dos generais —, isso nos revela a face mais
melancólica da nossa inteligência oficial. Uma academia que se isola em sua
redoma de mármore e silencia diante do arbítrio abdica de sua alma. Prefere o
conforto da poltrona à têmpera da resistência. No fundo, há nessa omissão um
medo ancestral de perder os favores do Estado, de sujar os sapatos lustrosos na
lama da pólvora e da censura.
Contudo, meu caro leitor, a cultura brasileira é
muito mais rica, miscigenada e vasta do que o silêncio protocolar de seus
imortais. Ela pulsa nas ruas, nos batuques, na fala do povo, nos livros que
teimam em nascer apesar da indigência editorial. A Academia pode até continuar
a eleger seus figurões e a guardar silêncio nos salões, mas a verdadeira
literatura do Brasil — essa sim — continua a se fazer com sangue, suor e uma
irrecusável alegria de existir.
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