quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O Metamorfo e a Cigana em Campinas - conto

 

        O sol da tarde derretia o asfalto da Rua 13 de Maio, em Campinas, misturando o cheiro de pastel de feira com o escape dos ônibus municipais. No entanto, o fluxo de pedestres parecia contornar os dois com uma precisão quase geométrica, como se uma lei não escrita da burocracia municipal proibisse o espanto naquela calçada.

        Sentada em um engradado de cerveja virado para baixo, a cigana Esmeralda jogava cartas encardidas sobre uma mesinha de plástico capenga. Em pé, diante dela, um homem de terno cinza-claro tentava, sem muito sucesso, manter uma forma humana definitiva. Suas têmporas ora afundavam em escamas verde-musgo, ora derretiam em plumas de corvo, num esforço constante para lembrar quem ele era pela manhã.

— Não adianta vir com essa retórica de transmutação rápida, moço — disse Esmeralda, sem erguer os olhos do baralho, enquanto batia unhas pintadas de vermelho escuro no plástico. — Aqui em Campinas, até as metamorfoses precisam de alvará da prefeitura. O senhor já tentou protocolar sua ausência de contornos no Poupatempo?

        O homem suspirou, e seu peito expandiu-se momentaneamente no dorso peludo de um urso pardo antes de murchar de volta para o corte alfaiate do paletó.

— Eu não escolhi isso, senhora — respondeu ele, a voz oscilando entre o barítono de um velho professor universitário e o coaxar seco de um anfíbio. — Ontem eu era um guarda-chuva esquecido no bonde. Antes de ontem, uma rotatória na Avenida Moraes Salles. Acordo toda manhã e descubro que meu fígado virou uma praça pública ou que minhas pernas decidiram ser a linha férrea abandonada da Fepasa.

        Esmeralda virou uma carta: o Oito de Espadas, manchado de graxa.

— É o mal de quem vive muito perto do entroncamento ferroviário. Campinas é uma cidade que estica e encolhe conforme a vontade dos trilhos. Mas o seu caso não é topografia, é falta de firmeza de caráter. O senhor se lembra de quando era um bicho só?

— Um bicho só? — o metamorfo sorriu com um sorriso que se multiplicou em três fileiras de dentes pontiagudos antes de voltar a ser humano. — É uma lembrança vaga. Lembro-me de ter tido um nome próprio, mas ele caiu de mim perto do Mercado Municipal, entre as bancas de mamão. Desde então, sinto-me como um rascunho borrado pela chuva. Se eu me descuidar, viro o Monumento a Carlos Gomes e fico preso na praça para sempre, ouvindo pombos.

— Pior destino seria virar o espumante local — retrucou a cigana, recolhendo as cartas com um gesto ágil. — Mas olhe bem para mim. O senhor acha que eu também sou inteira?

        O metamorfo fitou-a com atenção. Sob o lenço de seda dourada, as feições de Esmeralda começaram a se liquefazer em névoa, revelando por um breve segundo que ela não era senão o reflexo de uma vitrine vazia na Rua Barão de Jaguara, projetada ali por engano de luz.

— Nós somos a mesma coisa — concluiu o homem, resignado, enquanto sua mão esquerda se transformava temporariamente numa folha de bananeira seca que o vento logo levou. — Apenas acidentes de percurso numa cidade que esqueceu para onde ia.

— Exato — sorriu a cigana, voltando a ser de carne, os brincos de argila tilintando. — Agora, por favor, saia do meio da calçada. O ônibus da linha Centro-Baraão vai passar daqui a dois minutos, e seria uma pena se o senhor resolvesse virar o asfalto bem na hora da freada.

    O homem ajeitou a gravata que teimava em virar uma jiboia minúscula, deu de ombros e seguiu seu caminho, dissolvendo-se lentamente entre os transeuntes que apressavam o passo rumo à Estação.

 

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