O sol da
tarde derretia o asfalto da Rua 13 de Maio, em Campinas, misturando o cheiro de
pastel de feira com o escape dos ônibus municipais. No entanto, o fluxo de
pedestres parecia contornar os dois com uma precisão quase geométrica, como se
uma lei não escrita da burocracia municipal proibisse o espanto naquela
calçada.
Sentada
em um engradado de cerveja virado para baixo, a cigana Esmeralda jogava cartas
encardidas sobre uma mesinha de plástico capenga. Em pé, diante dela, um homem
de terno cinza-claro tentava, sem muito sucesso, manter uma forma humana
definitiva. Suas têmporas ora afundavam em escamas verde-musgo, ora derretiam
em plumas de corvo, num esforço constante para lembrar quem ele era pela manhã.
— Não
adianta vir com essa retórica de transmutação rápida, moço — disse Esmeralda,
sem erguer os olhos do baralho, enquanto batia unhas pintadas de vermelho
escuro no plástico. — Aqui em Campinas, até as metamorfoses precisam de alvará
da prefeitura. O senhor já tentou protocolar sua ausência de contornos no
Poupatempo?
O homem
suspirou, e seu peito expandiu-se momentaneamente no dorso peludo de um urso
pardo antes de murchar de volta para o corte alfaiate do paletó.
— Eu não
escolhi isso, senhora — respondeu ele, a voz oscilando entre o barítono de um
velho professor universitário e o coaxar seco de um anfíbio. — Ontem eu era um guarda-chuva
esquecido no bonde. Antes de ontem, uma rotatória na Avenida Moraes Salles.
Acordo toda manhã e descubro que meu fígado virou uma praça pública ou que
minhas pernas decidiram ser a linha férrea abandonada da Fepasa.
Esmeralda
virou uma carta: o Oito de Espadas, manchado de graxa.
— É o mal
de quem vive muito perto do entroncamento ferroviário. Campinas é uma cidade
que estica e encolhe conforme a vontade dos trilhos. Mas o seu caso não é
topografia, é falta de firmeza de caráter. O senhor se lembra de quando era um
bicho só?
— Um
bicho só? — o metamorfo sorriu com um sorriso que se multiplicou em três
fileiras de dentes pontiagudos antes de voltar a ser humano. — É uma lembrança
vaga. Lembro-me de ter tido um nome próprio, mas ele caiu de mim perto do
Mercado Municipal, entre as bancas de mamão. Desde então, sinto-me como um
rascunho borrado pela chuva. Se eu me descuidar, viro o Monumento a Carlos
Gomes e fico preso na praça para sempre, ouvindo pombos.
— Pior
destino seria virar o espumante local — retrucou a cigana, recolhendo as cartas
com um gesto ágil. — Mas olhe bem para mim. O senhor acha que eu também sou
inteira?
O
metamorfo fitou-a com atenção. Sob o lenço de seda dourada, as feições de
Esmeralda começaram a se liquefazer em névoa, revelando por um breve segundo
que ela não era senão o reflexo de uma vitrine vazia na Rua Barão de Jaguara,
projetada ali por engano de luz.
— Nós
somos a mesma coisa — concluiu o homem, resignado, enquanto sua mão esquerda se
transformava temporariamente numa folha de bananeira seca que o vento logo
levou. — Apenas acidentes de percurso numa cidade que esqueceu para onde ia.
— Exato —
sorriu a cigana, voltando a ser de carne, os brincos de argila tilintando. —
Agora, por favor, saia do meio da calçada. O ônibus da linha Centro-Baraão vai
passar daqui a dois minutos, e seria uma pena se o senhor resolvesse virar o
asfalto bem na hora da freada.
O homem
ajeitou a gravata que teimava em virar uma jiboia minúscula, deu de ombros e
seguiu seu caminho, dissolvendo-se lentamente entre os transeuntes que
apressavam o passo rumo à Estação.
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