I. A
Sombra do Norte
1. Houve uma era em que os reinos dos
homens floresciam sob céus abertos, antes que a escória dos abismos e as asas
da ruína pisassem o verde dos campos. Esta é a crônica da Casa de Bard, senhor
das Terras Centrais, e do dia em que a noite desabou do Extremo Norte.
2. Viviam então na corte a princesa Astri,
cujo semblante guardava a graça das manhãs de primavera, e seus augustos pais:
o Rei Bard, altivo e justo como o carvalho antigo, e a Rainha Helga, cujo
coração terno era o refúgio de todo o reino.
3. Mas a beleza pura atrai a cobiça das
coisas antigas e vorazes. Dos ermos congelados onde o sol jamais ousa aquecer a
terra, veio Balrongui, um dragão de escamas cinzentas como cinzas de sepulcro e
olhos que ardiam como brasas sob a neve.
4. Sem aviso, a fera desabou sobre as torres
de marfim. O hálito do monstro congelou os rios e estilhaçou as muralhas como
se fossem vidro. Antes que os guardas pudessem erguer as lanças, Balrongui
aprisionou a princesa em suas garras colossais e alçou voo para o norte
profundo, sepultando-a viva no calabouço de uma caverna esculpida no gelo
eterno.
II. A
Ruína e o Juramento
5. O rapto rasgou a alma do reino. Na
câmara real, a Rainha Helga, incapaz de suportar a ausência da filha, viu sua
mente ruir nas sombras da dor. A razão abandonou seus olhos, que passaram a
fitar o vazio.
6. Diziam os criados que ela vagava pelos
corredores desertos vestida de farrapos, conversando com as paredes e colhendo
flocos de neve imaginários, enlouquecida pelo eco de um choro que nunca mais
ouviu.
7. Mas onde a rainha pereceu na alma, o Rei
Bard endureceu como o aço temperado no fogo da desgraça. Ele não derramou
lágrimas. Subiu ao alto do forte e, erguendo sua espada de gume rubro perante
os capitões, proclamou o seu decreto:
8. "Juro pelas pedras ancestrais e
pelo sangue que corre em minhas veias que não conhecerei o descanso, nem a
coroa pesará em minha fronte, até que o cativeiro de minha filha seja desfeito.
Marcharemos para onde o mundo termina. Nem o gelo, nem as mandíbulas de
Balrongui deterão o peso da nossa vingança!"
III. A
Marcha e o Cativeiro
9. A ordem ecoou pelos vales, despertando
os corações guerreiros. De todas as aldeias e fortes, o exército de Bard se
reuniu: fileiras intermináveis de lanceiros com armaduras cor de chumbo,
cavaleiros de estandartes negros e ferreiros que traziam o fogo da guerra nas
mãos.
10. Sob um céu que escurecia a cada légua, a
hoste partiu rumo ao norte, marchando contra a nevasca implacável. À frente de
todos ia o rei, com o olhar cravado no horizonte ártico, pronto para desafiar a
própria morte.
11. Nas profundezas da caverna onde o sol
nunca penetrou, o ar fedia a enxofre antigo e escamas mortas. Presa a grilhões
de ferro negro fixados na rocha viva, a princesa Astri sentia o frio
devorar-lhe o fôlego. As paredes de gelo azulado refletiam a silhueta colossal
de Balrongui, que dormia um sono letárgico.
12. Astri, contudo, não havia entregue sua
alma ao desespero. Olhando para o colar de prata que sua mãe lhe dera antes de
o mundo desabar, ela sussurrava canções de sua terra natal, mantendo acesa em
seu peito a centelha da esperança.
IV. A
Batalha no Covil
13. Fora da caverna, a tempestade rugia como
um exército de espectros, mas o som foi abafado por um estrondo ainda maior: o
grito de guerra da humanidade. O Rei Bard e sua hoste haviam alcançado o covil.
14. Com machados de guerra pesados e o fogo
de tochas que sibilavam contra o vento polar, os soldados romperam a muralha de
gelo que selava a entrada. A terra tremeu quando Balrongui despertou, erguendo
seu enorme corpo escamado e abrindo mandíbulas de onde jorrava um fogo
espectral.
15. "Pelo sangue de minha filha!",
rugiu Bard, avançando à frente dos seus, com a espada brilhando na penumbra
gélida.
16. O dragão sibilou uma torrente de chamas
e geada, mas o escudo dos guerreiros formou uma muralha de aço impenetrável. Flechas
escuras choveram sobre as asas de Balrongui, forçando a fera a recuar para o
fundo do abismo.
17. Aproveitando a brecha, Bard correu pelas
pedras escorregadias até o calabouço interior. Lá, com um golpe furioso de sua
lâmina ancestral, ele estilhaçou os grilhões que prendiam Astri. A princesa
caiu em seus braços, fraca pelo frio, mas viva.
V. O Fim
do Colosso e a Aliança
18. O rugido final de Balrongui não foi um
grito de glória, mas o desmoronar de uma era. Quando a espada do Rei Bard
encontrou a fenda sob as escamas do monstro, o coração de fogo da fera
estilhaçou-se, e o colosso desabou como uma montanha de cinzas e gelo.
19. O retorno ao reino foi agridoce. A
Rainha Helga continuava a vagar pelos jardins do palácio em seu manto de
loucura, incapaz de reconhecer a filha nos brazos do marido. Nenhuma cura foi
encontrada para o espírito que a dor havia quebrado.
20. Mas onde a tristeza cobria os tronos, a
esperança encontrou um novo caminho. A vitória sobre Balrongui alcançou os
domínios antigos dos Elfos, de onde veio o Príncipe Elmar, cujo coração se viu
preso por laços mais fortes que o aço ao ver a resiliência de Astri.
21. Diante do altar sagrado do reino, com o
Rei Bard observando com um semblante solene, Astri foi dada em casamento ao
príncipe élfico. As trombetas soaram, unindo o destino dos homens e dos elfos
em uma aliança duradoura, selada pelo sangue do dragão morto e pela promessa de
um amanhã eterno.
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